02/07/2022 às 08h00min - Atualizada em 02/07/2022 às 08h00min

Crônica “A instabilidade da moeda”

EDMAR PAZ JUNIOR
Foto: Reprodução/Internet
Quero falar aqui hoje sobre um texto e não sobre um livro específico. Me impressiona a maneira como pouco tempo atrás, e coloco esse termo “pouco tempo” tendo em vista a vasta história da humanidade, por algumas décadas, mais ou menos entre 1930 e 1960, como o Brasil era recheado de muitos bons escritores e pensadores. Por que “perdemos” esses traços e essa inteligência? Quando houve, se é que houve, um momento marcante que determinasse o início do declínio cultural no nosso país? Na verdade, não há um fato relevante, ou pelo menos não apenas um, que fez com que fôssemos pouco a pouco perdendo o entendimento de ensinamentos mais elevados. Houve sim, como muitos agora parecem saber, uma proposital “deseducação” programada, que permitiu e induziu cada vez mais uma grande parte da população à uma dependência gradualmente maior do Estado. Essa necessidade, por mais que ilusoriamente gere um bem estar momentâneo quando satisfeita, proporciona benefícios apenas para um grupo reduzidíssimo de pessoas (leia-se políticos no poder) e prejuízo para o restante da população. 

Gustavo Corção, que considero um gênio, figurou entre esse grupo de escritores e críticos que sabem apontar as feridas de cada tempo, e indo além, o fazem com maestria ímpar e com uma sutileza lúcida ainda mostram possíveis soluções, levando em consideração que não existe solução simples para problemas complexos, naquela mesma linha do popular “o remédio que cura é amargo”.

Essa crônica em particular que comento hoje, é datada de dezembro de 1953, e o escritor discorre sobre os males da inflação que, “pasmem”, já naquela época “assolava” o país. A nossa educação pátria se perdeu em algum lugar do caminho, seja por interesses obscuros e obscenos, seja por conta da tendência humana de querer simplificar e facilitar sempre a vida – às vezes, nem sempre a simplificação, os atalhos, são os melhores caminhos. O pior é que quase sempre tentamos combater os inimigos errados, ou melhor, nos propõem falsos culpados pela situação econômica “ruim” do país, e geralmente por erros provenientes dos mesmos que “vendem” a solução. 

Estamos tão perdidos atualmente em relação à disciplina de economia básica, que uma deputada federal, recentemente defendeu a posição contrária a implementação no currículo das escolas de educação financeira para crianças e adolescentes. Disse que “as pessoas não precisam aprender a lidar com dinheiro, mas sim precisam de mais dinheiro fornecido pelo Estado”. Óbvio que a conta não fecha. E não é de agora. Mas por que essa digníssima deputada não quer que as pessoas aprendam a lidar com dinheiro?

A resposta para que as pessoas, principalmente as crianças, não o façam é bem simples: enquanto isso não for ensinado, não haverá alguém incomodando quem gasta o nosso dinheiro livremente. E Corção já apontou isso de forma brilhante em sua crônica. O poder de compra de todo dinheiro, em praticamente todos os tempos, diminui porque alguém – que não somos nós – “realizam seus desejos. Sem tocar no meu bolso, os superbatedores de carteira me desfalcam; sem tocar na cédula, esses mágicos a consomem; e é esse fenômeno, esse telerroubo, que se chama política inflacionária”.  

Porém, a crítica do autor não é apenas exclusiva sobre quem se utiliza da técnica inflacionária para angariar popularidade e simpatia dos mesmos que sofrem suas consequências; respinga indiretamente também naqueles que querem e desejam as coisas fáceis, que se contentam em viver uma vida sem interesse e profundidade de conhecimentos e sabedoria, pois se estes assim o fazem, aqueles têm cada vez mais espaço para se lambuzarem no dinheiro alheio. 

O escritor demonstra, de forma simples mas eficiente, uma das várias formas que já naquela época funcionava bem, e aliás, até hoje ainda captura os incautos – essas maneiras de iludir o povo vão sempre se atualizando e se aprimorando – e ainda sinaliza com ironia, “é nesse ponto que reside toda a graça da mágica”.

“A demonstração é fácil. O regime de inflação, produzindo a diminuição do valor do dinheiro, manifesta-se ao povo sob a forma pluralizada de encarecimento de todas as coisas. Tudo sobre. A carne, o café, a casa, a vida. Todos os bens essenciais começam a fugir das mãos assalariadas. Funcionários e proletários, unidos num clamor de indignação, invectivam os fornecedores; e ainda mais unidos, num clamor de súplica, apelam para o governo central e pedem aumento de salários.

O governo central declara-se então comovido diante do sofrimento do povo, e oficializa o coro contra os fornecedores. Entra em jogo o Ministério do Trabalho, forçando aumentos de salários, e tem-se o resultado final que queríamos demonstrar: o governo central fica com o mérito dos aumentos dos salários, e os fornecedores ficam com a culpa da carestia.

Haverá arranjo mais engenhoso do que esse, para enganar um povo que se detém na superfície dos fenômenos? Fabrica-se a infelicidade e colhem-se agradecimentos(...)”

Não é demais repetir, Corção escreveu essa passagem em 1953. Surpreende a forma como alguns políticos sempre fazem um jogo de luzes e ilusões de ótica, e que na maioria das vezes culpa quem menos tem culpa dos problemas, e mesmo diante de tanta informação disponível, muitas pessoas ainda acreditam nelas. É um problema que vai muito além de uma simples solução: se torna uma espiral viciosa de degeneração.  

“A instabilidade da moeda, como causa material, contribui para formar o ambiente de instabilidade moral, o clima do jogo, do lucro fácil, da ‘vida melhor’, do golpe. E destrói as virtudes da poupança e do equilíbrio doméstico. Economizar? Como é possível guardar um dinheiro que se evapora? (...) O povo se torna desperdiçado. Gasta muito do pouco que ganha. Vive a hora que passa. Gasta em tolices o que não chega a sobrar; e alimenta um milhar de indústrias desprezíveis que foram inventadas para pegar o níquel do pobre”.

É, as circunstâncias do mundo são cíclicas e a natureza humana não muda. Contra essas armadilhas ardilosas, há apenas um antídoto: Conhecimento.

Melhores Crônicas, Gustavo Corção. 


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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