18/06/2022 às 08h00min - Atualizada em 18/06/2022 às 08h00min

Cristianismo Puro e Simples

EDMAR PAZ JUNIOR
O feriado que passou, nesta quinta-feira de Corpus Christi, não é como outro qualquer. Muitas vezes esquecemos o que certas datas comemorativas significam, e isso é um problema bem grande, porque é sinal de que estamos nos distanciando de nossas bases e tradições, perdendo a conexão com a história que nos trouxe até aqui. A evolução, por mais que em determinadas épocas se dê por saltos, é sempre lastreada em fundações sólidas, firmes, que permitem com que possamos construir algo perene sobre esse terreno. É uma verdadeira sedimentação de camadas que cria condições para um desenvolvimento sustentável e contínuo. Perder essa conexão, esse sentido de continuidade, pode fazer com que joguemos fora grande parte de nossas conquistas e tenhamos que começar quase do zero a história.

Quando me deparei com essa obra do C.S. Lewis, um dos grandes nomes literários do nosso século, estava em um momento que a maioria de nós passou, passa ou ainda vai passar: sem tanta firmeza na Fé. Devorei o livro em pouquíssimo tempo, porque foi como se estivesse com sede num verão escaldante e colocassem um grande copo de água bem gelada na minha frente. Aquilo realmente matou minha sede e mais, fez com que enxergasse que há alimentos que verdadeiramente nos saciam. Acredito que exista um grande número de pessoas notando ultimamente que há alguma coisa errada, como se estivesse faltando alguma peça, ou como se a engrenagem estivesse girando fora do eixo. Parece que a direção que o mundo tomou é um precipício, e esse não pode ser o nosso único caminho.

O intuito do autor, como ele mesmo deixa explícito, não é te convencer a aderir religião A ou B, nem seguir determinado tipo de doutrina. O que ele busca investigar no livro são as raízes, as questões que sustentam esse emaranhado de denominações religiosas que vemos por aí, mas que possuem um liame essencial.

Existem princípios, bases elementares, de que estamos nos esquecendo, principalmente por nos afastarmos dos lugares que nos proporcionam isso, a Igreja. Sabemos que existe algo a mais e temos consciência, mesmo que indireta, de que nada que façamos nesse mundo pode nos completar. Então, se não há nenhuma forma de nos satisfazermos completamente aqui, é porque a solução desse anseio definitivamente não se encontra nesse lugar: está, como diz Lewis, um passo adiante.

A magistralidade de sua escrita nos leva a entender que enquanto acreditamos que satisfazer todos os nossos desejos desenfreadamente é sinônimo de liberdade, a equação é quase oposta, pois a verdadeira liberdade consiste em ter a consciência e o poder de decidir entre satisfazer ou não um desejo, por mais voluptuoso que seja.

Um aviso: o livro não prega uma sentença, em que se você não cumprir com as regras, Deus não vai te recompensar no céu. Está mais para um guia, uma trilha possível para nossas dúvidas internas, já que inevitavelmente, nem que seja por um milésimo de segundo de nossas vidas, não tenhamos nos perguntado o porquê de estarmos aqui, “perdidos”.

Lewis mostra que o Cristianismo é uma direção, não só para responder a essas questões, mas que realmente pode ser uma possível salvação. Engana-se, contudo, quem acredita que quando decidir realmente se entregar para Cristo as coisas ficaram mais fáceis. Quando tomamos essa decisão, entra em cena um verdadeiro paradoxo, porque a promessa de vida boa não é para agora. É um real “morrer para viver”, um cair para levantar. O escritor diz, “apenas aqueles que buscam resistir à tentação sabem o quanto ela é forte. (...) Só descobrimos a força do vento, quando tentamos andar no sentido contrário a ele, e não quando nos deitamos no chão. Uma pessoa que cede à tentação depois de cinco minutos simplesmente não sabe o que teria acontecido uma hora depois. É por isso que pessoas más, em certo sentido, sabem muito pouco a respeito da maldade, uma vez que vivem numa redoma pelo fato de sempre cederem. Só descobrimos a força do impulso maligno dentro de nós quando tentamos lutar contra ele”.

Um outro ponto fabuloso é quando Lewis diz que todos nós temos noção do que é certo ou errado dentro de nós, meio que como um item que “vem de fábrica”. E seguindo uma linha em que aumenta gradativamente a complexidade dos assuntos, ele diz: “Poderíamos acreditar que, desde que se faça a coisa certa, não faz diferença como ou por que a fizemos – se você fez de propósito ou sem querer, de forma emburrada ou alegremente, com medo da opinião pública ou por sua conta e risco. Mas a verdade é que agir corretamente por motivos errados não o ajudará a construir a qualidade interna ou caráter chamado ‘virtude’, e é essa qualidade ou caráter que realmente importa. (...) A questão não é que Deus vá impedir seu ingresso na eternidade se você não demonstrar certos traços de caráter; a questão é que, se as pessoas não possuírem pelo menos uma noção dessas qualidades dentro delas, então não haverá condições externas capazes de produzir um ‘Céu’ para elas”. Se não formos bons internamente, não haverá lugar algum que seja bom para nós, de forma que é possível estar no Céu e ter um inferno dentro de si.

Ser cristão é a luta de nos aprimorarmos o máximo possível aqui na terra, para sermos elevados ao próximo nível por Jesus Cristo. Imagine um muro bem alto que sabemos que nunca vamos conseguir ultrapassar, mas que lá em cima existe uma “Mão” que vai terminar de nos puxar: quanto mais nos esforçarmos e mais alto ficarmos, mais fácil será para sermos resgatados. 

Cristianismo Puro e Simples, C.S. Lewis.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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