19/05/2022 às 08h00min - Atualizada em 19/05/2022 às 08h00min

Banco de leitores

IVONE ASSIS
Buscando por alguns registros literários, deparei-me com a matéria “Nunca tantos leram tão pouco”, de Maurício Rosenblatt, publicada no Jornal de Letras, do Rio de Janeiro, do ano de 1949, que diz: “Sim, fala-se e escreve-se muito sobre a crise do livro. Títulos em manchete gritam o perigo que dessa crise decorre para a cultura. Auscultam-se opiniões as mais variadas. E, de um modo geral, atribui-se a crise ao preço do livro e ao editor. A conclusão é demasiada simplista para ser verdadeira e, pessoalmente, não creio que o natural encarecimento do livro seja o causador de tal crise, como não creio que o editor seja o inimigo de seu próprio negócio. A verdade, a melancólica verdade para aqueles que amamos o livro, ou para os que dele pretendem viver, é que se lê cada vez menos. [...] nunca houve tanto automóvel circulando, tanto rádio novelizando, tanta eletrola domesticando música, e nunca se vendeu tanta geladeira elétrica, tanta vassoura elétrica, tanta lavadeira elétrica e tantas outras maravilhas, elétricas ou não, que representam o sonho de todo o mundo e que constam de todo o orçamento pré ou post-nupcial. [...] Enquanto livrarias se fecham e editores mudam de profissão, os cinemas, os auditórios de estações de rádio [...] e os estádios esportivos vivem repletos e prosperam”. Então, entre um apontamento e outro, o colunista afirma: “Há pressa em viver. E viver é, no consenso generalizado, tudo ver, tudo provar em experiências diretas. Pouco tempo e menos interesse sobram, pois, para o livro. [...] Revistas de serem vistas – não lidas – substituem, nas mãos das crianças, os volumes dos irmãos Grimm, de Júlio Verne, de Sabatini, de Dumas. E não se pense que a crise do livro se verifica somente no Brasil [...]” (ROSENBLATT, 1949, p. 3). Eu poderia citar toda a matéria, para que pudéssemos comparar com nossa contemporaneidade a angústia do judeu Rosenblat, nascido na Argentina e falecido em Porto Alegre-RS. Notaríamos que pouco se mudou de lá para cá, não pelo aumento de preços, ou pelo aumento de ofertas de múltiplas possibilidades que “encurtam o tempo”, porque bem sabemos, o tempo é imutável, nós é quem optamos por fazer isto ou aquilo. Nunca se publicou tanto como agora e, com ironia, “nunca tantos leram tão pouco”. Isso é mais que revelador de que não se trata de valores ou de tempo, mas, sim, de cultura. Ou melhor, da falta dela. As transformações sociais e econômicas são partes inerentes do progresso, bem como a oferta e a demanda de produtos. Mas, vejamos a culinária, por exemplo, a cada segundo mais possibilidades de alimentos industriais e cardápios variados, contudo, o bem-casado arroz com feijão está sempre na moda; as panificadoras, com suas vitrinas cada vez mais tentadoras, porém o rei da procura continua a ser o pãozinho. A razão é simples: Preferência. O consumidor deseja esses produtos, porque foram educados, desde que nasceram, a consumi-los. E no mercado livreiro isso não é diferente, a criança não aprende a consumir leitura, porque, na primeira década de vida, se pobre, aprende a consumir trabalho; se rica, a consumir viagens e tecnologias. A classe média, por sua vez, procura copiar a classe alta. Desse modo, a leitura é como se fosse um namoro, ou um casamento, fica ali no aguardo do amadurecimento do ser, até que este cresce e opta por ter, ou não, o livro, a leitura, o saber... Então, quando alcançam esta fase, estão na etapa de conquista da própria fama, por esta razão, optam por publicar suas próprias histórias, sem antes consumir o que o antecedeu. De modo estranho, isso não é de todo ruim, porque o mercado terá mais produto, no entanto, o que se observa são escritas cada vez mais rasas de saberes e mais rotuladas de seguidores. Não se trata de poder de consumo ou de valor de mercado, e sim, de valor cultural. O que, evidentemente, produz um banquete mais abarrotado de publicações e mais vazio de conteúdo, e de modo inevitável, esvazia o banco de leitores.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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