07/05/2022 às 08h00min - Atualizada em 07/05/2022 às 08h00min

A vida na Sarjeta

EDMAR PAZ JUNIOR
Foto: Reprodução/Internet
Quantas vezes nos perguntamos o porquê temos a impressão de que a sociedade caminha cada vez mais em direção ao precipício, numa verdadeira espécie de suicídio coletivo? Geralmente, essa sensação se apresenta quando notamos o quão caótica, sem direção, e até mesmo em certa medida desordenada, está a nossa vida e a dos demais que estão à nossa volta, e também na quantidade exagerada de crimes, maldades e situações absurdas que os homens se colocam dia a dia uns em relação aos outros. A título de exemplo, essa semana um adolescente esperou durante 4 horas dentro de uma ambulância o atendimento em um hospital no Rio de Janeiro, infelizmente vindo a falecer após essa injustificada espera. Por que os homens chegaram a esse nível de “perversidade”? Mesmo que não conseguissem salvá-lo nessa emergência, era necessário que pelo menos tentassem. 

Já dizia um velho ditado em que um índio diz a seu pequeno neto, que todos temos dentro de nós uma luta constante entre dois lobos, um bom e outro mau. Perguntado sobre qual venceria a batalha, o sábio indígena responde:

--- Aquele que alimentamos.

Atualmente a sociedade tem alimentado demasiadamente o lobo mau...

Theodore Dalrymple é um médico britânico com larga experiência em atendimentos com as classes mais baixas da sociedade inglesa e discorre com extrema inteligência e assertividade situações que acontecem bem embaixo dos nossos olhos, mas que simplesmente fingimos ou escolhemos não ver: a degradação moral do ocidente, e de certa maneira, consequentemente do mundo – já dizia o escritor russo Aleksander Soljenítsyn, que o ocidente é a última esperança de salvação da humanidade, mesmo que não quisesse e rejeitasse preguiçosamente esse posto.

As pessoas caminham lentamente, e talvez o pior, completamente em transe e no “automático” em direção à ruína de tudo. Simplesmente não conseguem perceber o rumo que tomaram em determinada estação da vida, e pouco a pouco se veem absortos - ou melhor não se veem, e esse é o xis da questão – em um emaranhado de redes sociais, ensinamentos e novos costumes que são predominantemente nocivos ao nosso intelecto: é uma verdadeira lavagem. 

Em muitos pontos torna-se inevitável a comparação no livro com o nosso país atual, principalmente após décadas de propagação de uma péssima educação, e particularmente de uma ideologia largamente falada e “glamourizada” como sendo a solução para o mundo, mas que não passa de utopia que não mede as consequências de suas ideias, implantada e disseminada à força nas escolas públicas. Mesmo tendo um dos maiores investimentos em educação do mundo, em relação a porcentagem investida do PIB, o Brasil decaiu a cada ano, cada vez mais nas posições dos rankings de educação mundial. 

A obra começa com um prefácio sensacional de Thomas Sowell, economista e escritor norte americano, que também possui estudos e publicações que evidenciam, de uma maneira até mais técnica que Dalrymple, os motivos que estão levando a sociedade  a passos largos para sua derrocada moral, mas que ao mesmo tempo, com cada vez mais possibilidades de crescimento econômico e intelectual, permite que uma quantidade de pessoas, até antes inimaginável na história da humanidade, tenham ferramentas e possam viver em condições que não seja de extrema miséria ou abaixo da linha da pobreza. Como diz, “A maioria dos pobres hoje tem televisão em cores e forno micro-ondas. A pobreza no antigo sentido material está longe de ser tão disseminada como outrora.”

A ideia que Dalrymple apresenta neste livro, em forma de crônicas que narram as suas experiências cotidianas, tanto nos hospitais, prisões, atendimentos em residências a até mesmo em passeios pelos “guetos” londrinos, é a de que a sociedade aprendeu a se vitimizar e transferir suas responsabilidades sempre para terceiros. Indo além, entrou em uma verdadeira espiral de decadência tenebrosa, quando simplesmente começou a desprezar aquilo que era tido como bom, belo e tradicionalmente eficaz – diga-se de passagem, que funciona a mais de dois mil anos - , seja em artes, educação ou mesmo em situações simples, como o modo de se vestir. Contudo, esse imenso ciclo de ressentimento social e terceirização de culpa, teve início com a propagação de ideias progressistas, sempre abstratas, que tratam o ser humano como absolutamente livre de suas responsabilidades, desprezando sistematicamente as consequências dessas ideias.

Em suas crônicas conta casos surpreendentes que nos fazem deitar os olhos sobre certos assuntos que dizem não podermos “questionar”: aquela velha máxima de que política, religião e futebol não se discutem, por exemplo. Mas então, ele narra a história de uma indiana de 16 anos de idade que tem o sonho de continuar e terminar o colegial, entrar para a faculdade e conseguir um emprego para ser independente, mas que está sendo obrigada a se casar com um primo que nunca viu em sua vida, sob o risco de ser espancada caso se negue, e por isso teve crises nervosas e tentou o suicídio para sair de casa, deixando o médico em um grande impasse: aconselhava-a a sair de casa para enfrentar um mundo sozinha ou a deixava retornar para uma vida certamente envolta de tristezas e cenários futuros incertos?

Até que ponto é válido não questionar uma lei moral em um determinado país, por exemplo nos países muçulmanos, mas que contradizem nossos costumes? Scruton disserta muito bem sobre esse ode ao “multiculturalismo” que Dalrymple fala nos textos, em que os estrangeiros buscam um país melhor para se viver, citando no caso a Inglaterra, mas querem que o país que escolheram para morar se adequem aos seus costumes, sendo que se mudaram para o país justamente pela promessa das benesses que visualizaram. Ou seja, se mudam por um fator liberdade, mas querem impor seus costumes que geralmente giram em torno de autoritarismo. A pior parte dessa ideia é que realmente existem intelectuais que a endossam. 

Em tom de bate papo, o livro gira em torno da experiência pessoal do médico e ajuda a sair um pouco da bolha (para aqueles que vivem no mundo encantado das redes sociais) e olhar para o que realmente acontece à nossa volta, explicando de forma bem informal alguns motivos que podem ter sido as causas do caos social contemporâneo.

A Vida na Sarjeta, Theodore Dalrymple.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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