17/02/2022 às 08h00min - Atualizada em 17/02/2022 às 08h00min

Contação de histórias

IVONE ASSIS
As nuvens foram rasgando alas na escuridão, para que o Sol se encontrasse com a Lua. Da minha janela, fiquei a observar aquele intenso encontro, que engravidou a Lua, fazendo-a cheia. Enquanto isso, fui lembrando de uma infância longínqua, em que diziam haver um cavaleiro de armadura e espada reluzentes, lutando com um dragão, naquela que seria uma bola de fogo. Como a contação de histórias é importante na vida de uma criança, são elas, as histórias, que ajudam a criança a vencer seus medos, a criar seus heróis, a enfrentar seus fantasmas... As histórias são conselheiros que vão montando estratégias ao lado da criança, e não importa quão grande seja o problema, ela sempre encontrará uma solução. A história encoraja a criança. Então, por mais absurda ou sem graça que possa parecer, a história sempre levará aprendizados aos pequeninos, e será por meio delas que eles criarão suas ferramentas de defesas, seus planos e estratégias, sua interpretação de mundo, sua coragem e persistência... Mia Couto escreve: “A lua anda devagar, mas atravessa o mundo”. A frase pode ser basilar, mas foi ele quem teve a ideia de pôr tinta na palavra, mostrando ao leitor o seu imaginário e ajudando a tantos outros a ampliar suas visões. Quando uma frase se desprega da mente, ela vai abraçando a todos, cujos olhos alcançarem. Por isso, a palavra deve ser acertada, para não ferir, mas sim, ensinar. Mario Quintana questiona: “Que haverá com a lua, que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez?” Aqui o poeta expõe a sua perplexidade ante a beleza e os mistérios da Lua, a qual molda a natureza todos os dias, mudando o cenário para que o espectador saiba que não há mesmice, quando há criatividade. Imaginação, criatividade e originalidade são sinônimas, e seu papel é levar transformação a todos que não se trancam na negatividade ou na falta de ânimo. A literatura age como ferramenta de recriação do mundo por meio das palavras, propiciando uma releitura do real, da sociedade, para que o leitor veja através do imaginário, podendo, portanto, contra-argumentar o que está por vir. A literatura traz reflexão sobre a sociedade, convidando cada qual a analisar sua realidade. Em sua obra sobre a estética do romance, Bakhtin (2014a, p. 31) afirma que “[...] A obra é viva e significante do ponto de vista cognitivo, social, político, econômico e religioso num mundo também vivo e significante”. Então, por mais que o bom livro seja arte, ficção ou imaginário, é na realidade que ele encontra embasamento, e isso lhe concede o privilégio de se apresentar como palco de encenação para o discurso diário. Bakhtin declara a obra de arte como “[...] recíproca, tensa e ativa com a realidade valorizada e identificada pelo ato”. Aprendemos com Antônio Cândido que a literatura corresponde a uma necessidade universal, e, se não atendida, estará sujeita à mutilação da personalidade. A literatura é libertação, portanto, atua como instrumento de humanização. Um literato ou analista literário que não se atém a esta importante particularidade está inapto à sua função. Ao ler “Ismália”, de Alphonsus de Guimaraens, o poeta anuncia a profunda dor e loucura que atravessa o peito de Ismália: “Quando Ismália enlouqueceu, / Pôs-se na torre a sonhar... / Viu uma lua no céu, / Viu outra lua no mar. // No sonho em que se perdeu, / Banhou-se toda em luar... / Queria subir ao céu, / Queria descer ao mar... // E, no desvario seu, / Na torre pôs-se a cantar... / Estava perto do céu, / Estava longe do mar... // E como um anjo pendeu / As asas para voar... / Queria a lua do céu, / Queria a lua do mar... // As asas que Deus lhe deu / Ruflaram de par em par... / Sua alma subiu ao céu, / Seu corpo desceu ao mar...”. Sábios são os adultos que ensinam seus filhos a pensarem, a verem a literatura sob a luz do luar, pois estão fazendo a diferença por meio da contação de histórias.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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