15/02/2022 às 17h11min - Atualizada em 15/02/2022 às 17h11min

Histórias em Quadrinhos e Judaísmo

CHICO DE ASSIS
Há alguns dias uma notícia sobre a interdição do uso da HQ “Maus” em salas de aulas de um condado nos EUA tem sido tema de debate entre pesquisadores e entusiastas dos quadrinhos. 

A justificativa do Conselho Escolar responsável pela decisão é de que na narrativa apareciam uma cena de nudez e palavras de baixo calão, o que em si já seria tragicômico, mas tempos tão controversos nos permitem questionar se a tentativa de censura não está relacionada ao tema central da história e uma busca de seu apagamento. O trabalho do quadrinista Art Spiegelman fala sobre o holocausto a partir de entrevistas realizadas com seu pai, sobrevivente de campo de concentração nazista. Obviamente a obra traz muitos elementos históricos, mas também muito da vida intima da família, como a perda de um irmão de Art, o suicídio de sua mãe muitos anos após o fim da guerra. As dificuldades de relacionamento com seu pai, com o tema tratado e mesmo com sua condição de autor. Pode ser um trabalho de difícil absorção e digestão para muitos leitores, mas é uma referência sobre o tema, e Spiegelman encara a tarefa com enorme coragem e honestidade. “Maus” foi publicado em todo o mundo, é um dos trabalhos mais conhecidos entre leitores eventuais de HQs, e um dos mais citados em pesquisas acadêmicas, o que demonstra que conseguiu ultrapassar os círculos convencionais de discussão dessa linguagem. Recebeu prêmios como “Eisner” voltado para os Quadrinhos, e o “Pulitzer” voltado para literatura e jornalismo. É sem dúvida uma obra essencial quando se fala de holocausto, Judaísmo e segunda guerra mundial, e uma tentativa de censura no contexto histórico em que estamos vivendo é realmente algo preocupante. A polêmica trouxe à tona questões tanto a respeito do tema como de “Maus”. E felizmente o teor dessas discussões parecem estar seguindo a direção contrária do tal “conselho escolar”.

Questões ligadas ao Judaísmo não são raras nas Histórias em quadrinhos, durante a Segunda Guerra muito da indústria dos Super Heróis se engajou na luta contra o exército de Hitler, talvez mais por conveniência e motivos comerciais que ideológicos, já que em outros momentos também foram usados para propagandear outras faces do imperialismo dos Estados Unidos. Mas alguns associam toda a mitologia dos super heróis com referenciais judaico cristãos. Associando por exemplo a figura do Superman, criado por Jerry Siegel e Joel Shuster dois jovens de origem judaica, com a história de Moisés estabelecendo paralelos entre os dois.

Outro autor de origem judaica e que trabalhou temas religiosos em suas histórias foi Will Eisner, um dos mais consagrados quadrinistas de todos os tempos. Aproximações com temas religiosos mesmo de forma indireta aconteceram em seu trabalho, mas em dois deles essa é mesmo a questão central: “O Complô, a história secreta dos protocolos dos sábios de Sião” contando a história de uma teoria conspiratória criada e disseminada na segunda metade do século XIX, com a finalidade de atingir a imagem dos judeus. E a segunda é: “Fagin, o Judeu” onde o personagem do romance “Oliver Twist”  de Charles Dickens é quem narra a história de seu ponto de vista. 

Há ainda a história fantástica de um gato que apaixonado pela filha do rabino seu dono, após devorar um papagaio adquire o dom da fala e começa a questionar dogmas religiosos, além de pretender se converter ao judaísmo para poder ficar com sua amada. “O gato do Rabino” é narrado com um tom de fábula, às vezes com um certo onirismo, e muito humor, mas tratando o tema com muito cuidado e propriedade. Joann Sfar, seu autor, já publicou onze tomos dessa HQ na França. No Brasil saíram infelizmente apenas dois, e ao que parece não haverá continuação em breve. Mas não é difícil encontrar o filme de animação baseado no quadrinho e com direção do próprio Joann. É fantástico o resultado alcançado no longa-metragem com uma animação linda e uma trilha sonora hipnótica. Vale muito a pena tanto o quadrinho como a animação.

Existem muitas outras referências à cultura e religião judaica nas HQs, pelo viés do humor, da tragédia, visões positivas outras nem tanto, narrativas históricas e jornalísticas e outras fantasiosas. Quem se interessa pelo Judaísmo não tenha dúvida, o universo dos quadrinhos é rico em questões a serem exploradas e apreciadas sobre esse tema.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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