09/11/2021 às 08h00min - Atualizada em 09/11/2021 às 08h00min

Quadrinhos, Ciência e Coronavírus

CHICO DE ASSIS

Histórias em quadrinhos tratando de temas científicos não é propriamente uma novidade. Já nos anos 1950, a editora EBAL trouxe a coleção “Ciência em Quadrinhos”, essa publicação, junto a outras de temas históricos e adaptações literárias, fez parte de um esforço da editora em responder ao feroz discurso contra essa linguagem e que a acusava de empobrecer o raciocínio lógico, entre outros argumentos que ironicamente nada tinham de base científica. A verdade é que o tema ciência não é nem um pouco estranho ao universo dos Quadrinhos, desde aventuras onde o Tio Patinhas e seus sobrinhos “viajam” dentro de uma folha mostrando a fotossíntese e demais processos bioquímicos dos vegetais, até aventuras futuristas que estimulam a imaginação científica. Algumas vezes podem pecar por serem excessivamente didáticas e outras por tratar com descuido o discurso científico, o que não podemos é acusar as Hqs de ignorar o tema.

A preocupação com a divulgação científica entre jornalistas, sobretudo de departamentos de comunicação em universidades, tem crescido bastante, e junto a isso o uso de Quadrinhos como ferramenta de difusão. Como exemplo temos a HQ “Ciclos” de autoria do biólogo Luciano Queiroz e do cartunista Marco Merlin, construída com base em um artigo científico sobre insetos aquáticos, ou a bem humorada série “Cientirinhas”, também de Merlin e grande sucesso na internet. “A história da ciência em Quadrinhos”, projeto da UFOP ou “Os Cientistas”, produzido por jornalistas e pesquisadores que buscam desmistificar o cotidiano de quem trabalha nessa área, é publicado diariamente em jornal de Campinas até 2002 e posteriormente em coletânea. 

O advento da pandemia da covid-19 nos mostra que tão urgente quanto criar uma vacina ou descobrir um tratamento eficaz para a nova doença é conseguir informar e formar a população, em geral, para uma compreensão cientificamente pautada da realidade. A despeito da inaptidão, desinteresse e descaso de parte do governo, nós vemos profissionais de saúde, das ciências e da educação e comunicação redobrarem esforços nesse sentido, e as histórias em Quadrinhos estão mais uma vez presentes. Nessa seara temos a “Combate ao Covid-19, todos pela saúde de todos” de Alexandre Montandon e “Super poderes contra o Coronavírus" do Social Comics, ambas com explicações sobre a doença e como se comportar para evitar o contágio.

No entanto, lembremos que ciência não é só o que se faz no laboratório com reagentes químicos e microscópicos – temos as ciências sociais, a psicologia, a antropologia e tantas outras áreas das Ciências Humanas. E algumas HQs que tratam do aspecto social, econômico e político em relação a covid-19 são realmente surpreendentes, seja pela reflexão que sugerem ou pelo fato de terem sido feitas com tamanha agilidade em relação ao aparecimento do fenômeno de que tratam. São elas: “O Momento”, do autor Sonny Liew de Singapura; e as brasileiras “Pandemia na Quebrada” e “Farol de Quebrada”, de Sirlene Barbosa e João Pinheiro; e também a reportagem em Quadrinhos “O País não pode parar”, obra de Vitor Teixeira e Guilherme Weimann; todas belíssimas crônicas ilustradas retratando as esperanças e desesperos da luta que vivemos diariamente. Se as histórias em Quadrinhos foram, um dia, negligenciadas como objeto de estudo, penso que no futuro, caso haja algum, os historiadores não poderão compreender nosso tempo sem se voltar também para essa linguagem artística.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


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