22/01/2022 às 08h00min - Atualizada em 22/01/2022 às 08h00min

Iludidos pelo acaso

EDMAR PAZ JUNIOR
Foto: Reprodução/Internet
Muitas coisas acontecem conosco todos os dias, boas ou ruins, desde algo simples, como o pão que cai no chão com a manteiga virada para baixo, até um acontecimento um pouco mais grave, como um acidente de trânsito que vai causar uma grande dor de cabeça. Um emprego que não deu certo, ou uma oportunidade de negócio que chegou de repente. Uma receita que não saiu da forma esperada, ou aquele prato que ficou maravilhosamente delicioso. Nossa vida é permeada de acontecimentos simples ou complexos que julgamos estar sob nosso controle e sempre que surge determinado fato, tentamos logo entender os motivos que levaram até seu desfecho. 

Nassim Nicholas Taleb, um dos ótimos escritores modernos, elaborou um esquema de livros, que nomeou como “Projeto Incerto”, sendo um conjunto de quatro obras em que tenta mostrar por outro ângulo do que nossa vida é feita. Basicamente funcionando como que os sulcos de um carimbo que não marca o papel, mas também delimitam as linhas de um desenho, o seu projeto joga luz sobre aspectos da nossa vida que damos pouca atenção. “Iludidos pelo acaso”, “A lógica do cisne negro”, “Antifrágil” e “Arriscando a própria pele” se totnaram best-sellers no mesmo momento em que foram lançados. 

Nos livros, Taleb apresenta vários conceitos acerca de situações cotidianas, mas com o cunho de originalidade própria do autor, pois além de nomear de forma distinta os que conhecemos, desvenda alguns desconhecidos. Entretanto, alguns conceitos se sobressaem aos outros, e muito por conta também da bagagem que o leitor carrega, impactam de maneira diferente em cada um. Essa é uma das belezas da literatura, proporcionar sensações distintas em relação ao mesmo assunto. Mas, sempre surge aquele tema que se destaca mais e consequentemente fica mais evidente quando analisamos o impacto que a obra deixa em nós. Nessa obra, acredito que um dos que mais se sobressaltaram foi o “Viés do Sobrevivente”.

Quando alguém faz uma análise ou experimento científico, geralmente se recorta um pedaço do objeto que se deseja avaliar, seja um quadro social, ou um experimento químico ou físico, por exemplo. Esse modo de se fazer ciência é um tanto quanto perigoso quando utilizado para nortear determinadas circunstâncias de nossa vida, uma vez que, de certa forma, nada mais é que do que uma validação do que o cientista busca, ou seja, ele testa inúmeras possibilidades dentro do recorte que realizou, até que sua hipótese seja validada dentro dos parâmetros que ele também selecionou. 

Como isso se tornou comum nos dias atuais, acabamos por importar esse mesmo tipo de análise para nossa vida e quando olhamos para algumas pessoas de sucesso, geralmente acabamos por desprezar quantas pessoas não obtiveram sucesso. Quer dizer, ficamos hipnotizados pelo sucesso alheio e não olhamos para os fracassos. Mas olhar para quem não conseguiu atingir seus objetivos é tão mais importante quanto observar quem conseguiu. 

Um dos exemplos muito bons que ele apresenta no livro, é sobre o jogo dos macacos nas máquinas de escrever. Quando se diz que alguns macacos escreveram a história de Homero, mais essencial do que avaliar o resultado, é saber o ponto de partida da análise. Como ironiza Taleb, “Se há cinco macacos no jogo, eu ficaria muito impressionado com o escritor da Ilíada, a ponto de suspeitar que seja a reencarnação do poeta da Antiguidade. Se há um bilhão elevado à potência de um bilhão de macacos, eu ficaria menos impressionado - na verdade, seria uma surpresa se um deles não viesse a apresentar uma obra bem conhecida”.  Assim, é preciso sempre tentar fazer uma análise um pouco mais ampla de alguma situação para que possamos tentar fazer um julgamento melhor na tomada de decisões.

Confundir aleatoriedade, ou sorte, com algo que inevitavelmente deva fazer sentido, como se tudo dependesse ou fosse causado por uma consequência lógica, pode turvar nossa mente e fazer com que percamos tempo tentando entender e buscando razões para algum acontecimento. A percepção dessa confusão, apresentada por Taleb, ajuda a tirar a pressão que sofremos para que tudo aquilo que façamos dê certo ou tenha algum sentido útil.

Claro, nem tudo depende da sorte também, mas ela age nos dois sentidos, tanto nas vitórias, quanto nas derrotas. Porém, deixar que o vento guie o barco pode não ser a melhor solução. É preciso abrir possibilidades, para que então a sorte se apresente e faça a sua parte. Devemos entender que a sorte aparece em todas as situações, e não podemos nos vangloriar sempre de nossas conquistas, como se ela não tivesse agido também e Taleb nos recorda disso com ótimas sacadas, como por exemplo: “Lembre-se se que ninguém aceita o papel do acaso em seu próprio sucesso, apenas em seu fracasso”.

Um outro bom exemplo exposto, de como devemos tentar criar nossas possibilidades, traz a comparação entre um dentista e uma pessoa comum que acertou na loteria. Em outras milhares de vidas possíveis, o dentista será sempre um dentista, seja em um consultório moderno e com convênios de empresas milionárias ou em uma instituição de caridade, atendendo pessoas necessitadas sem receber nada em troca. Já o ganhador da loteria, em qualquer outra possibilidade de vida, será quase sempre uma pessoa “comum”, sendo praticamente impossível que ganhe novamente o prêmio principal. 

Mesmo com a sorte agindo em praticamente tudo, não se pode simplesmente deixar que ela determine o sentido de nossa vida. Fazer algo e tomar uma direção para que ela siga seu próprio caminho é dever de cada um e não podemos esperar da sorte o que não fazemos por nós mesmos. Uma pequena vitória é muito mais gratificante que nenhuma derrota. Ou indo além, uma pequena derrota é melhor que nada, pois é sinal de que pelo menos estamos tentando e buscando algo. Me chamou a atenção o seguinte trecho: “Sucesso demais é o inimigo (pense em como os ricos e famosos são punidos), fracasso demais é desmoralizante. Eu gostaria de ter a opção de não conseguir nem um nem outro”.

Iludidos pelo acaso, Nassim Nicholas Taleb.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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