21/12/2021 às 08h00min - Atualizada em 21/12/2021 às 08h00min

Bio HQ.

CHICO DE ASSIS
A Linguagem das Histórias em Quadrinhos tem sido cada dia mais usada para tratar de temas científicos. Muitas vezes a questão aparece de forma muito simplificada, apenas como mote para criar uma aventura, o que é já muito muito bom. Muitos quadrinhos tentam aproximar o leitor de questões científicas, mas via de regra o entretenimento é mais importante que a reflexão e exposição de dados de pesquisas. Mas algumas vezes a ciência é o fato central.  Embora não seja uma novidade, é ainda raro, se considerarmos o volume total da produção, as HQs “cientificas”, ou a exposição de hipóteses de pesquisa em forma de quadrinhos. A mais antiga de que tenho notícia no Brasil é a tese de doutoramento de Momtchilo Russo na Universidade de São Paulo, sobre endotoxinas apelidadas de “Diabos Azuis”, transformada em quadrinhos com a colaboração dos artistas Marilene Pini e Gofredo da Silva Telles, publicada em 1982. Segundo o autor, a História em Quadrinhos era ideal para apresentar o trabalho, pois a capacidade de síntese dessa linguagem seria a melhor forma de expressar sua complexidade. No mundo há certamente um oceano de possibilidades sendo executadas, como nos mostra o “erc Comics”. Publicação do “The European Research Concil” dedicada à divulgação científica em Quadrinhos.

Hoje se tornou urgente e imprescindível que a comunicação científica alcance um grande público.  Vamos, portanto, falar de algo mais recente e mais próximo da nossa realidade, “Bio HQ, Biologia em Quadrinhos”. Publicado pela Zarabatana Books e realizado por iniciativa de João Agreli, Rosângela Dantas de Oliveira e Solange Cristina Augusto, todos professores e pesquisadores universitários. São dez Histórias em Quadrinhos resultantes de um “laboratório/diálogo”, da experimentação e interlocução entre natureza, ciência e arte. Buscando aproximar da vida cotidiana conhecimentos bastante específicos da Biologia, nas áreas da Ecologia, Botânica, Zoologia e Microbiologia. Os personagens são abelhas, formigas, aranhas, mariposas, vespas e plantas, além de onça e lobo-guará. Enquanto o conteúdo fala da relação de interdependência entre as espécies que compõem um ecossistema, a forma traz a interconexão entre arte e ciência.  A obra nos permite portanto refletir, a partir de conceitos e estudos sólidos, sobre nossa relação com as outras espécies e como nossa própria sobrevivência depende de reelaborar essa relação. E sua forma artística nos permite perceber como nós, seres da linguagem, temos a capacidade de difundir nossos conhecimentos e anseios atravessando tempo e espaço, “contaminando” outros indivíduos construindo “redes”, “famílias”, “reinos”, “sistemas”.

Falar sobre a diversidade estética e técnica das imagens, e como elas se conectam ao conteúdo é algo relevante, mas não é a pretensão deste pequeno artigo. Não deixo entretanto de ressaltar a alta qualidade dos trabalhos apresentados e destacar como me impressionou a belíssima arte da HQ “Vivendo Intensamente”, ilustrada por Guilherme Marques Ferreira. Mas o mais importante é reconhecer o trabalho de vinte e sete pessoas, entre pesquisadores e artistas e como ele nos é apresentado com unidade e qualidade artística e conceitual. E o esforço em resistir à uma maré de obscurantismo anticientífica e antiarte. Isso é o mais importante a ser apoiado e comemorado neste momento.

Algum governo, ou política de estado minimamente séria, adotaria esse trabalho como material paradidático nas escolas públicas, pois ele mostra não apenas o potencial da ciência e da arte na educação, mas o que é possível fazer quando essas duas dimensões da vida humana se unem, e a universidade salta seus próprios muros. 


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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