11/12/2021 às 08h00min - Atualizada em 11/12/2021 às 08h00min

A Abolição do Homem

EDMAR PAZ JUNIOR
Foto: Reprodução/Redes Sociais
Existem sentimentos que nos atraem para um determinado lugar, um possível assunto, uma pequena meta ou até mesmo um grande objetivo, como uma espécie de conexão interior. Contudo, um desejo por um livro, por uma viagem ou mesmo por um alimento que seja, é diferente daquele, que se manifesta de uma forma um pouco mais profunda, algo que mesmo que notamos sentir, na maioria das vezes não sabemos identificar. Este sentimento, atração ou conexão mais denso, pode ser entendido como um Princípio. Podemos até duvidar, mas é fato que somos regidos por eles, e tenho notado ultimamente que estão em falta na sociedade. Não sou prepotente a ponto de elencar aqui quais os valores que são únicos e verdadeiros, e tampouco encontrar um significado universal para eles. Entretanto, a cada vez que buscamos respostas na sabedoria de nossos antepassados, encontramos algumas “coincidências”. 

Há uma coerência, um sentido em determinado caminho, uma ordem superior que aponta para valores que são válidos. C.S Lewis é magistral em suas obras, e nessa também não seria diferente, nos mostrando um pouco do que pode ser essa ordem, não necessariamente por demonstrar quais são os princípios basilares, mas ao apresentar a forma como querem destruí-los, conseguimos vê-los. E faz duras críticas à maneira como a destruição destes princípios foi e tem sido difundida na educação dos jovens. Apesar do livro ter sido publicado em 1944, é um tema atual, demonstrando que Lewis era mais um dos autores que enxergavam à frente do seu tempo.

Como dito acima, é trabalho um pouco arriscado tentar determinar quais são os princípios válidos ou se são mais importantes ou não que os demais, porque corremos o risco de esbarrar nas mais variadas distinções desses significados espalhados pelas diferentes crenças. Entretanto, Lewis apresentou uma espécie de consenso entre essas diferentes linhas de pensamento, ou pelo menos um esboço do que sejam esses valores, ao pegar traços de conceitos cristãos, platônicos, aristotélicos, estoicos e orientais. Decide um pouco mais a frente, que se referirá a esses princípios por Tao, em alusão ao conceito oriental que trata “da Natureza, do Caminho, da Estrada, da Via, pelo qual o Universo caminha”, ou seja, uma ordem natural das coisas. Mesmo parecendo conceitos mais espirituais do que reais, Lewis diz que não se pode negar que a doutrina do valor objetivo, a convicção de que certas atitudes são realmente verdadeiras, e outras realmente falsas em relação ao que é o universo e ao que somos, é algo comum a todos.

Na obra, ele toma como exemplo um livro educacional produzido por autores contemporâneos seus, que tentam reformular a maneira de educar, tirando o real significado das palavras e colocando em seu lugar sentimentos que nada tem a ver com o que os jovens vivenciam na prática. Deslocam arbitrariamente fragmentos do contexto mais amplo da própria verdade universal e os levam “à loucura de seu isolamento”, e os chamam de novos sistemas ou novas “ideologias”. Ou seja, isolam um determinado ponto de uma teoria e tentam validá-la de qualquer maneira, desconsiderando a sua origem. A questão é que “a rebelião dessas ideologias contra o Tao é a rebelião dos galhos contra a árvore; se os rebeldes tiverem sucesso, acabarão descobrindo que terão acarretado a destruição de si mesmos”.

Lewis é justo em se perguntar se a rejeição às críticas contra essa ordem nos condenaria a uma não progressão de nossas percepções de valores, e se estaríamos condenados para sempre a um código imutável de condutas. Para ele existe a necessidade da realização de críticas, porém as limita e diz que esses valores admitem o desenvolvimento a partir de dentro, explicando a diferença entre avanço moral legítimo e mera inovação.

O resultado daquela substituição dos métodos de ensino é a criação de “homens sem peito”. Faz ainda uma comparação entre a velha e “nova” educação, dizendo que “enquanto a velha educação se empenhava numa iniciação, a nova meramente ‘condiciona’. A velha lidava com os seus alunos como pássaros adultos lidam com os filhotes quando lhe ensinam a voar; a nova lida com eles mais como domesticador de aves que lida com jovens pássaros – fazendo-lhes isso ou aquilo com um propósito que as próprias aves desconhecem. Em uma palavra, a antiga era uma espécie de difusão – homens transmitindo humanidade para outros homens; a nova não passa de propaganda”. E de fato, esse é um bom resumo do que temos hoje na sociedade: meros repetidores, e não pensadores. 

 Ao caminhar dentro do livro, percorremos um conjunto de informações que ao se ligarem no capítulo final, demonstram a coerência e lucidez de Lewis, que como excelente professor, pega o aluno pela mão e guia-o para a luz. Abre-se um verdadeiro campo em nossa mente e podemos enxergar com clareza algumas situações que vivemos na atualidade. A ideia precípua dos que propagam essas “novas ideologias” ou novos métodos de ensino, é a de que o “Homem deve conquistar a Natureza”. Essa “conquista” já foi parcialmente alcançada, por exemplo através da tecnologia ou do domínio sobre as matérias, restando uma “última” barreira: o controle total do Homem sobre si mesmo por meio da genética, do condicionamento pré-natal e da educação e da propagando baseadas em uma psicologia perfeitamente aplicada. “A natureza Humana será a última parte da Natureza a se render ao Homem”. 

Assim, será “decretada” a vitória do Homem sobre a Natureza. Mas quem, mais precisamente, terá vencido? “Porque o poder do Homem de torná-lo aquilo que ele quiser na verdade significa, como vimos, o poder de alguns homens de fazer o que eles quiserem de outros homens”. O esvaziamento dos sentimentos humanos, do senso de Justiça, da Verdade e do que é Belo, a partir da educação dos jovens, produziu e produzirá ainda uma imensa massa de manobra nas mãos de poderosos, revelando que a conquista final do Homem é na verdade conquista de poder de manipulação. Lewis mostra uma possível saída, que passa mais uma vez pelos ensinamentos dos antigos sábios, que colocavam como problema principal do Homem “conformar a alma à realidade”, ou seja, adequar o que somos à vida prática e não o contrário. A solução encontrada por eles foi “o conhecimento, a autodisciplina e a virtude”. E o mais maravilhoso de tudo é que essa solução está ao alcance de todos, e embora não sendo tão simples, virtudes como parcimônia e temperança, e mesmo inteligência comum, se tornaram obstáculos à essa “conquista” ficta e consequente derrocada do Homem.  

A Abolição do Homem, C. S. Lewis.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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