30/11/2021 às 08h00min - Atualizada em 30/11/2021 às 08h00min

Ditadura no Ar: uma HQ que rememora um dos períodos mais violentos da história do Brasil

POR ALINE ROMANI
Escrevo estas linhas no ano em que se completam 57 anos do Golpe de Estado promovido pelos militares no Brasil, com apoio da elite brasileira, parte da sociedade civil e da Igreja Católica. Naquele 31 de março de 1964, iniciou-se uma série de eventos que encerraram o governo do presidente eleito, João Goulart, e marcou o fim da nossa democracia. Foram mais de 20 anos de uma cruel ditadura, que perseguiu, assassinou, torturou, prendeu e censurou qualquer oposição. Foram anos de um regime duro que restringiu e retirou dos brasileiros o gozo de seus direitos como cidadãos, sua liberdade de expressão, seu direito de protestar; foi, além disso, um governo que priorizou medidas econômicas que aprofundaram a desigualdade social no Brasil.

Considero que relembrar a história é parte fundamental da construção da nossa cidadania. Manter a memória viva é se manter atento às mudanças, é dar sentido ao presente, é identificar nossas vitórias e encarar nossas derrotas, é impedir que governos autoritários se consolidem novamente. Mas não é apenas o historiador que cumpre essa função. O registro artístico e a produção cultural tem papel fundamental na manutenção dessa memória.

Ditadura no Ar, Coração Selvagem é uma HQ que cumpre este papel com excelência. O romance policial em quadrinhos é ambientado em 1969, após o AI-5 (Ato Institucional Número Cinco), o mais duro de todos os Atos Institucionais, emitido em 13 de dezembro de 1968, e demonstra preocupação impecável com a verdade histórica, retratando o imaginário da época: linguagem, gírias, vestimentas, o clima de terror que pairava no ar.

A história de ficção é protagonizada pelo fotógrafo Félix, que mesmo não se envolvendo diretamente com a política institucional, após o desaparecimento de sua namorada e estudante Nina, passa a procurá-la e é perseguido pelos agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Nina foi presa em uma manifestação estudantil e pacífica e nunca mais foi vista.

No enredo de Ditadura no Ar, Coração Selvagem, a história de Félix é atravessada pela história de outras personagens que tornam a narrativa ainda mais complexa e interessante. A rotina de trabalho de Félix em um jornal, por exemplo, é fundamental para entendermos a censura prévia, o autoritarismo da própria imprensa e a influência dos militares nas publicações. Todas as personagens que cruzam a jornada do protagonista à procura de Nina têm sua história contada: exílio, tortura, assassinato, perseguição, manifestações pacíficas e luta armada. A palavra comunista ganha destaque nesta trama de opressão e criminalização de ideias.

Félix não queria derrubar o governo. Mas conheceu essa mulher sonhadora e se apaixonou pela estudante que desejava mudar o Brasil. Nessa narrativa, o protagonista da história, fotógrafo apaixonado, foi perseguido pelos bedéis do governo porque ousou procurar sua amada, raptada pelo Estado brasileiro.  

Ditadura no Ar, Coração Selvagem é uma HQ envolvente. Seja pela qualidade artística dos desenhos do cartunista Abel, seja pelo roteiro assertivo de Raphael Fernandes. Você vai se emocionar, se identificar com as personagens, e compreender um pouco melhor a dinâmica da ditadura vivida no Brasil entre 1964 e 1985.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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