23/11/2021 às 08h00min - Atualizada em 23/11/2021 às 08h00min

Retículas nas HQ

*Por Luciano Ferreira

Sempre fui fascinado com retículas, sejam elas do estilo ben-day, que é o método de uso de retículas para coloração dos quadrinhos mais antigos, ou aquelas retículas que vinham em uma espécie de papel-transfer. No caso das retículas que vinham nesse papel que “transfere’’ os pontos por meio de  esfregar o papel e colar os pontos em outra superfície, até era simples de entender o funcionamento, pois além de serem apenas pontos pretos agrupados, sua utilização era de fácil compreensão e obtinha resultados razoavelmente previsíveis ( mas frequentemente sofisticados e interessantes) .

 

Mas as retículas de impressão colorida era algo que desafiava minha curiosidade, pois a princípio eu achava que era uma simulação dos fosfenos (aquelas manchas caleidoscópicas que aparecem quando as pessoas esfregam os olhos ) ou que havia uma relação com os pontos coloridos que compõem as imagem de uma tela de televisão. No caso, eu cogitava isso na época da TV de tubo. 

 

Mas sempre havia algo além, uma impressão de que havia algo ali que eu ainda não entendia completamente.

 

E de fato um detalhe me escapou completamente e mesmo com um olhar recorrente e atento sobre outdoors, gibis e cartazes, até um dado momento da minha vida de leitor/observador de artes gráficas, eu não tinha me dado conta que todas as cores no uso de impressão com retícula, eram combinações de pontos com cores primárias que geram outras combinações de cores.

 

Por exemplo: pontos magenta com espaçamento branco resultava em um rosa próximo a cor de pele de uma pessoa branca, uma percentagem de magenta e amarelo, resultava em laranja. 

 

Quando constatei essa mistura, percebi que as formas concêntricas  que os pontos formavam, na verdade eram um método de distribuição dos pontos com cores primárias, a fim de alcançar as misturas necessárias.

 

Com a ajuda do filme “Vivendo a vida adoidado’’ e de muito papo com amigos, logo associei a coloração por retícula com produções artísticas que derivam do Pontilhismo e das obras de Seurat, e também do Impressionismo, como Monet e tantos outros. Foi quase um susto perceber que o Fantasma, Tarzan etc utilizavam técnicas de coloração que se assemelhavam a obras de “alta cultura’’. Mais “susto’’ eu tive quando vi a série de pinturas de Monet, estudando os efeitos da luz e da meteorologia sobre a Catedral de Rouen, que para meus olhos engibizados, pareciam páginas saídas da hq Asilo Arkham: só faltavam o Bruce Wayne e o Coringa passeando por ali. 

 

É preciso notar que o pessoal que trabalhava nas gráficas também fazia um trabalho artístico bonito e criterioso a fim de poder imprimir com melhor fidelidade, ilustrações com detalhes mais sofisticados em comparação com a produção convencional de quadrinhos, mas geralmente esses "co autores'', artistas das gráficas, tinham mais liberdade quando trabalhavam em jornais, por conta de recursos técnicos mais adequados. 

 

Não é à toa que o uso de retículas fascinou o artista estadunidense Roy Lichtenstein e encanta mangazeiros e artistas pelo mundo, pois além do charme e composição que os pontos tem, sua utilização na coloração é um curioso desafio de combinações e efeitos. 


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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