18/11/2021 às 08h00min - Atualizada em 18/11/2021 às 08h00min

Finalistas do Jabuti 2021

IVONE ASSIS

Todos os anos, centenas de pessoas concorrem a diversos prêmios literários, e dentre os mais cobiçados está o Prêmio Jabuti, cuja premiação 2021 ocorrerá na próxima semana. Dos 5 finalistas para esta 63ª edição, resultantes de 3.422 inscrições, além de algumas figurinhas repetidas, como Michel Laub, que foi Jabuti 2007, temos uma grata surpresa na categoria Poesia, em que 5 mulheres disputam o prêmio. Esta foi a única categoria preenchida exclusivamente por mulheres. São elas: Mar Becker, com “A mulher submersa”; Maria Lúcia Alvim, “Batendo pasto”; Jussara Salazar, “O dia em que fui Santa Joana dos Matadouros”; Micheliny Verunschk, “O movimento dos pássaros”; Prisca Agustoni Pereira, “O mundo mutilado”.

MARceli Andresa BECKER, natural de Passo Fundo (RS) e moradora de São Paulo (SP), é filósofa e concorre com sua primeira obra escrita “A mulher submersa”. Nela, Mar Becker segue apresentando a mulher na literatura, no espaço doméstico e na história, em trilhas entre a vida e a morte, enquanto poetiza: “por vezes, uma pássara prenha entra em algum dos vãos do beiral do telhado. Com o ninho já construído, ela se instala e põe seus ovos”, mas vem a chuva e leva o filhote. E assim, entre o intenso e o abandono, a mulher vai sendo rotulada, em muitos universos pequenos: “mulher é tudo igual”. “[...] há noites em que fico mais de hora sentada à soleira da porta / nos fundos de casa / olho o copado da jabuticabeira / a roupa no varal [...]”.

MARIA LÚCIA ALVIM, nascida em 1932, na cidade de Araxá (MG) e moradora de Juiz de Fora (MG), também concorre com sua primeira publicação poética, “Batendo pasto”. Ela que teve um congelamento literário de 40 anos sem publicar, saiu do 1980 para o 2020 com a obra “Batendo pasto”, que veio forte, e revogando seu pedido inicial, quando entregou seu manuscrito a um “depositário”, sob orientação de que tal obra só viesse a público após sua morte. Como a vida tem sido generosa, concedendo-lhe muitos anos, em 2020, o pedido foi por terra, “Batendo pasto” nasceu e agora, em 2021, é uma das obras finalistas do Jabuti. “Manhã sem rusga / pequeno depósito de agrura na poça / exorbitei de alegria / a abóbada celeste não dá vazão / silos de silêncio / ó ser astral / o capim é minha grande reserva interior / a esperança / desleixo” (ALVIM).

JUSSARA Farias de Mattos SALAZAR é pernambucana residente em Curitiba (PR), sua arte se divide entre as Plásticas e a Poesia. Vencedora do 6.º prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura, “O dia em que fui Santa Joana dos Matadouros: do amor entre fogo, faca e bala” é fruto de dez anos de escrita, inspirada na vivência de três mulheres fadadas ao silêncio de suas vontades. A morte e a bestialidade cercaram estas três mulheres, e a poesia vem tentando não deixar que suas memórias morram.

A também premiada pernambucana MICHELINY VERUNSCHK (1972), historiadora, apresenta “O movimento dos pássaros”: “Essa caixa de guardar absurdos. / essa caixa de gerar esquecimentos. / essa caixa de ossos e lamentos. / essa caixa labirinto de ventrículos. / essa caixa de caminhos esquecidos. / essa caixa de linhas esticadas. / essa caixa de tudo tão pesada. / essa caixa essa caixa essa caixa. / teu nome dentro dela uma ave. / uma ave a bater desencontrada.

E, fechando o grupo das finalistas do Jabuti Poesia 2021, temos PRISCA Rita AGUSTONI de Almeida PEREIRA, com “O mundo mutilado”. Ela nasceu em Lugano (1975), região da Suíça de língua italiana, veio para o Brasil em 2003 e, atualmente, é professora na UFMG, em Juiz de Fora. O mundo mutilado apresenta o testemunho de muitas migrações estampadas nos jornais do mundo entre 2003 e 2007, tempo em que o oceano bebeu muitas vidas.

Então, quando vejo o discurso tolo de que ninguém lê poesia, sinto muito em contrariar os agourentos, mas a poesia é mais que isso, a poesia lê o mundo, logo, não enxergar a poesia é fechar os olhos para a beleza que há, é também ignorar a dor que rasga a história.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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