04/11/2021 às 08h00min - Atualizada em 04/11/2021 às 08h00min

Postes no meio do caminho

IVONE ASSIS

Na história, especialmente quando voltada à política, quase sempre há “pedra no caminho”, mas, neste ano, o prefeito de Presidente Kennedy, no sul do estado do Espírito Santo, inovou, colocando “alguns postes no meio do caminho”. A rodovia foi asfaltada com a rede elétrica entremeada. E todos os noticiários pararam na “pedra”. Com tanto burburinho, consultei o site da prefeitura de PK, para saber mais. Deparei-me com a nota de que a prefeitura já fez a solicitação de mais de 50 realocações de postes, em diversos trechos, sendo que somente um bairro foi atendido. Também consultei o site da EDP, mas neste não encontrei nada. De um lado, a Prefeitura solicitou, tardiamente, a retirada dos postes, do outro, a EDP se esforça em não atender, para, possivelmente, provar a falta de planejamento do outro. Mas o que de fato acontece é um desperdício do dinheiro público, e um risco enorme de acidentes para quaisquer motoristas e/ou pedestres que passem por ali. Neste caso, todos perdem, em todas as esferas.

Isso me levou ao poema “Pedra no caminho”, de Carlos Drummond de Andrade, que diz: “No meio do caminho tinha uma pedra / Tinha uma pedra no meio do caminho / Tinha uma pedra / No meio do caminho tinha uma pedra / Nunca me esquecerei desse acontecimento / Na vida de minhas retinas tão fatigadas / Nunca me esquecerei que no meio do caminho / Tinha uma pedra / Tinha uma pedra no meio do caminho / No meio do caminho tinha uma pedra.

O poema, quando publicado em 1928, foi um escândalo, uma aberração da Arte Moderna. Primeiro, feria a norma culta língua portuguesa, por, no lugar do verbo “haver”, utilizar-se o verbo “ter” no sentido de “existir”. Isso era inconcebível, à época. Hoje, essa transgressão gramatical já foi para o delete. Depois, a enfadonha repetição soava como “poema sem sentido”, talvez uma piada. Até Ferreira Gullar, em entrevista, fala sobre sua repulsa inicial àquele poema. A literatura, como ensina Antonio Candido, deve corresponder à satisfação de uma necessidade universal, do contrário, fere sua personalidade, uma vez que se a literatura dá forma aos sentimentos, ela poderá libertar ou aprisionar; beneficiar ou prejudicar...

O planejamento, tal qual a fruição literária, não se atém ao ato de consumo em si, mas, sim, ao consumo consciente, que seja adequado e vá além do prazer. Planejar bem, além de ser essencial para as finanças e para a construção do processo de realização, também propicia oportunidades, alento, educação, identidade, esta última, por sua vez, gera emancipação pessoal. No caso do poema de Drummond, justifica-se por saber que o leitor leva um tempo maior para compreender. O que não deixa de gerar um prejuízo crítico-intelectual. Porém o tempo mostrou ao leitor que a repetição dos versos, os entrecortes, a pedra, tudo era planejado para se construir uma crítica aos desvarios do autoritarismo sobre o homem do séc. XX, aquele caminhante em caminho contínuo e tortuoso. Já no caso dos postes citados, não posso dizer que esse caminho tortuoso e cheio de obstáculos tenha tido planejamento crítico, antes, porém, gerou crítica por falta dele.

O escritor e jornalista Xisto Fernando escreveu em seu perfil de Facebook “Um dos grandes problemas da juventude actualmente é a pressa. Com apenas 17 ou 18 anos, já começa a reclamar, ‘Haaa, por quê a minha vida não dá certo?, ‘Haaa, por quê não encontro emprego?’, meu irmão, não se desespere, tu tens muita vida pela frente, invista na informação intelectual e humana, o resto virá no tempo de Deus”.

Ora, o afoito ocupa todas as idades, e o tempo é longo e curto, na mesma proporção, para todos, então, Xisto Fernando está certo, não cabe desespero a ninguém, todos devem investir na capacitação própria, desse modo saberemos interpretar os versos e, consequentemente, interpretaremos os fatos. A partir daí, a pedra no caminho será apenas um desafio. Do contrário, a gestão, pública ou privada, terá sempre “postes no meio do caminho”.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.




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