22/10/2021 às 08h00min - Atualizada em 22/10/2021 às 08h00min

Joelho ralado e plágio

WILLIAM H STUTZ
Saio de casa rumo ao praticamente único lugar que me arrisco em tempos sombrios de doença, de peste negra contemporânea de um século XIV, provocada pelo bacilo Yersinia pestis e deflagrada, a partir do ano de 1348, em plena idade média:

“Vários historiadores sugerem que a origem da peste negra seja asiática, especificamente chinesa ( que sina!). Sua inserção na Europa teria ocorrido por meio de caravanas comerciais que se dirigiam para cidades portuárias do Mar Mediterrâneo, como Gênova e Veneza, nas quais havia intensa atividade comercial e grande concentração demográfica. Aproximadamente ¼ da população europeia sucumbiu com a doença, o que provocou um dos maiores decréscimos demográficos da história.” Fonte: Mundo Educação no site: mundoeducacao.uol.com.br/historiageral/peste-negra.htm”

Tempos depois carregou algumas semelhanças com o atual SARS. Ainda conforme o site Mundo Educação:
“Inicialmente, os principais agentes transmissores da doença eram os ratos e as pulgas, que se proliferavam com facilidade tanto nas cidades quanto nos vilarejos menores em razão das condições precárias de higiene. Posteriormente, na fase mais crítica da pandemia, a contaminação ocorria por via aérea. Por meio de espirros ou tosse, o bacilo acabava sendo transmitido pelo ar.”

 Aspas e fonte, sempre. Explico. Já tive vários textos plagiados ao longo dos anos e sei bem a sensação que dá quando isso acontece. Primeiro a indignação, depois um pouco de raiva e finalmente um sentimento de pena, de dó mesmo. Uma pessoa que assim faz age como um ladrão intelectual, medíocre que é, incapaz de criar, mas se sente e acredita que pode. Desprovido de recursos neurais para tanto, usa e abusa do colar e copiar sem citar as fontes. Canta de galo e chega a acreditar que o que roubou lhe pertence por direito.

Estranhamente me lembrei de meus tempos de ávido leitor do Pasquim, quando em 1971 Henfil nos apresentou o seu Tamanduá, “a besta do apocalipse que assola nosso torrão”, aquele que “chupa cérebros para revelar as faces ocultas de pessoas que aceitam as condições políticas e culturais vigentes”. (PIRES, Maria da Conceição Francisca. Culture and politics in Henfil's cartoons. História, São Paulo, v. 25, n. 2, p. 94-114, 2006.https://www.scielo.br/j/his/a/tDFMf7bkq4MswP5MTmcSYVv/?format=pdf&lang=PT).

Claro que era uma visão da ditadura à época, mas serve direitinho para descrever aquele sem o menor talento para o que se propõe, no caso um simples escrever.

Sabemos que o golpe do plágio está em todas as partes e artes, mas é nos escritos, sejam literários ou científicos, que encontra grande prosperar. Contudo, como diz o falar popular, um dia a máscara cai.
Meu mudar de rumo nesta prosa veio do nada. Falava de andar, sair de casa, cujo um dos poucos lugares por mim visitados é o supermercado. Vou com vidros do carro fechados e não ouso pisar lá dentro sem máscara. Minha companhia é o rádio. Numa dessas idas esqueci o celular em casa e não tinha como conectar minha lista de músicas do Spotify. A única alternativa foi ouvir uma das estações locais em busca de um som que me agradasse. Difícil. Uma ou outra das décadas 70, 80 e 90 me prenderam e comecei a cantarolar junto. Eis que do nada, em uma rádio que jurou que não tocaria sertanejo universitário, ouvi uma música do anti-gênero, inclassificável para meus ouvidos. O trânsito caótico em faltas de setas, ultrapassagens pela direita e buzinaço (quando parei para dar passagem a um carro e depois a um pedestre encurralado, equilibrando-se sobre uma guia). Carros colando na traseira, em um acelerado sem razão, não me permitiram mudar a estação de rádio. Deixei-me ficar a ouvir aquele tormento musical. Certa altura a cantora me saiu com esta frase: “Porque um joelho ralado dói bem menos que um coração partido (...)” Assustei, não podia ser isso! No estacionamento do supermercado parei e me propus a ouvir toda a letra. Cara, era aquilo mesmo! O negócio do joelho ralado era sério! Ainda sem acreditar me deixei lembrar das raladas fodas que levei quando criança, ao cair mil vezes de carrinho de rolimã, de árvores e muros. As calças viviam remendadas nos joelhos, algumas com uns remendos de napa ou couro, na tentativa de nossa avó fazê-las durar mais. O sangue brotando, o ardume da água de torneira no lavar o ralado e depois o castigo com merthiolate daquele vermelho, que ardia de arrancar lágrimas disfarçadas em trincar de dentes. Daí para as “dores do coração”. Aquela menina da rua que todos queriam namorar. O criar coragem para um:— Quer namorar comigo? E aquele longo esperar para no fim ouvir:— Vamos ser só amigos tá? Aí vem a tal dor no coração, quando seu melhor amigo passa, no mesmo dia, desfilando com ela! E quer comparar isso com um joelho!?

Acho que esses tipos de compositores e os plagiadores andam a beber do mesmo poço da falta de imaginação. Claro, com a diferença que a ruindade musical não é crime, nem falta de caráter.
Descobri depois que quem canta essa música se chama Kell Smith. Tive a curiosidade de ouvi-la no Youtube e acredito, sinceramente, que ela tem potencial para coisa muito melhor do que isso aí. Torço por ela e, se pudesse lhe sugerir algo, seria que ouvisse os clássicos de nossa música. Para não falar que só critico, a frase "O dia em que todo dia era bom" ficou ótima! Mas o refrão...
Quer saber de verdade? A moça canta muito bem, tem uma voz linda e no fundo às vezes o doido sou eu que, talvez tenha perdido alguma coisa da licença poética. Sou péssimo crítico quando o assunto é música. Assumo.

Toda sorte do mundo para essa moça, que segundo Rebeca Fuks, Doutora em Estudos da Cultura

"Era uma vez" é a música de maior sucesso da cantora e compositora brasileira Kell Smith.Criada pela própria artista, a música que estourou é a terceira faixa do álbum Girassol e já conta com mais de 150 milhões de visualizações no YouTube e 32 milhões de execuções no Spotify.Em termos de rádio, chegou a alcançar o 1º lugar em São Paulo, o 2º lugar no Rio de Janeiro e alcançou o top 40 em todo o Brasil.”

In Cultura Genial.

É assim que se faz plagiadores de rapina.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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