08/10/2021 às 08h00min - Atualizada em 08/10/2021 às 08h00min

Ora pois

WILLIAM H STUTZ
Nada mais prazeroso do que o convívio com os amigos, os encontros, profusão de ideias casos, boas prosas. Em momento assim o compadre, padrinho de meu filho, foi quem contou essa história. Impossível não compartilhar dada a beleza poética, a sutileza nela contida. Sei bem o quanto um caso contado fica diferente do caso escrito. A sonoridade da narrativa, os tons e trejeitos são sempre imbatíveis e compõem a história lhe dando movimento e pontuando situações difíceis de serem expressas através da linguagem escrita. Mas mesmo assim resolvi arriscar um olho.

Aos lusitanos em geral e em particular àqueles que me são caros uma ressalva. O relato que aqui se faz não carece de pedido de desculpas, nada tem de crítica ou gozação a eles. É apenas uma forte constatação da objetividade linguística dos irmãos de além mar, um retrato de como são economicamente responsáveis e objetivos gramaticalmente.

Um exemplo: Minha irmã quanto em Portugal esteve, a um motorista de táxi perguntou quanto às margens do Tejo passava:
- Por favor, que rio é esse?
O taxista:
- Ora pois, este é um rio.
Achando que não havia se feito entender repetiu a pergunta. Obteve a mesma resposta e ainda recebeu um olhar mal-humorado.
O correto, o normal lá, veio a saber, seria perguntar: "Qual o nome desse rio?" A resposta viria de pronto e educadamente: "Este é o rio Tejo". Simples assim.

Para nós brasileiros raramente a distância mais curta entre dois pontos é uma reta. Para eles: sempre o é.
Vamos ao ocorrido.

Tempos atrás, em alguma pequena cidade de Portugal, alguns dizem que aconteceu em Setúbal outros garantem que ocorreu em Paços de Ferreira, alguns juram que tudo se deu junto a magnífica Serra da Estrela na pequena Covilhã. Cada um que conta muda a cidade, ninguém, na verdade ninguém quer assumir o episódio, mas estes são detalhes que não mudam o conteúdo nem diminuem o caso.

O fato é que em algum lugar haviam dois amigos dados aos prazeres dos vinhos e cervejas e que tinham por passatempo fazer incursões em velórios não se importando se conheciam ou não o falecido ou sua família.

Bastava os sinos dobrarem por um passamento e lá iam os dois, não sem antes darem uma paradinha em bodega mais próxima. Tasca esta diga-se de passagem sempre das mais de ponta da vila, onde para variar se embebedavam a falar com intimidade de um morto desconhecido, nunca visto.

Quis o destino certa feita, que um velório pegasse os dois amigos apartados, cada um em canto da cidade. Estavam, a mesas, copos e companhias de distância.

Não houve aperto. Calmamente cada um terminou a sua prosa e sua bebida para só então seguirem, uma rua acima outra rua abaixo para a casa onde acontecia o velório.

Depois de algum tempo um adentra a sala repleta de gente circunspecta, séria como demandava a situação.

Já da porta avistou seu companheiro que havia chegado minutos antes.

Abriu caminho rumo ao amigo de velas e taças. Depois de vários esbarres, pedidos de desculpas silenciosos, sorrisos sem graças e murmúrios sem palavras, postou-se ao lado do afeiçoado, sussurrou bem perto de seu ouvido para não chamar atenção:

- Quem morreu?

O outro, sem mudar o semblante sério olhando de para o canto apontou disfarçadamente em direção ao féretro e de pronto respondeu, palavra única:
- Ele.

E pronto.
 
 

Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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