30/09/2021 às 08h00min - Atualizada em 30/09/2021 às 08h00min

Poeira da atitude

IVONE ASSIS
Para comemorar o Dia Mundial do Tradutor, abro esta coluna com "Procura da Poesia", de Carlos Drummond de Andrade, publicada em “A rosa do povo”, (2006, p. 24-26), escolha que se deu por eu entender que este poeta é um tradutor da história, por meio de sua escrita: “[...] Penetra surdamente no reino das palavras. /Lá estão os poemas que esperam ser escritos. /Estão paralisados, mas não há desespero, /há calma e frescura na superfície intata. /Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. /Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. /Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. /Espera que cada um se realize e consume /com seu poder de palavra /e seu poder de silêncio. /Não forces o poema a desprender-se do limbo. /Não colhas no chão o poema que se perdeu. /Não adules o poema. Aceita-o /como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada /no espaço. //Chega mais perto e contempla as palavras. /Cada uma /tem mil faces secretas sob a face neutra /e te pergunta, sem interesse pela resposta, /pobre ou terrível, que lhe deres: /Trouxeste a chave? [...]”.

Drummond nos arranca da zona de conforto e nos coloca a pensar além da trivialidade. Eu queria, a exemplo dos meus mestres e grandes pesquisadores, trazer ilustres teóricos que justificassem, com sua ciência, a seriedade de se ensinar literatura, sobretudo poesia, haja vista ser isso algo que me intriga, mas o meu saber encurta-se mais que o desejado, então, agarro-me ao meu entender costumeiro, erigido em uma trama aberta da palavra, para que o simples, como eu, possa entender a tradução do vocábulo em sem tempo, ou para o seu tempo, é nisso que vejo a importância da literatura e da poesia. Para Carlos Felipe Moisés, em “Poesia e utopia: sobre a função social da poesia e do poeta” (2007), esse fazer é libertário e anárquico, seu discurso ensina a "ver as coisas como se fossem pela primeira vez". O poema é uma alocução sempre atual, que pede sedução e criticidade, conforme a penúria do momento. O poema é catártico e ético, e é capaz de "transver o mundo" (Manoel de Barros), traduzindo, revolvendo sentimentos, escrevendo discursos, observando o entorno.

De volta a Drummond, tomo emprestada a reflexão de Mário Faustino (1950) que escreveu, relativo a esse mineiro: sua poesia “[...] é documento crítico de um país e de uma época”, portanto, sua escrita é uma interpretação de um tempo, em diversas esferas. Ouso dizer que a literatura é a porta cultural que conduz aos saberes erudito e popular, cada qual a seu tempo e medida, sem prejuízo a nenhuma das partes.

A poética de Drummond traz a Segunda Guerra Mundial, a sociedade brasileira, a economia, a política nacional e internacional, quanto a esta última, podemos encontrar os governos totalitários de esquerda e de direita, com seus feitos e defeitos, e a devoção dos apoiadores de cada lado. A política é um imenso banquete, com pratos variados e, muitas vezes, inusitados, no qual cada Chef ambiciona encantar seus degustadores e, quem sabe, perpetuar seu cardápio. Drummond, dialogou com o mundo, trazendo o seu olhar de jornalista e a sua sedução de poeta, em ambos os casos, não deixou dúvidas sobre o quanto há de interesse próprio por trás de cada “bandeira hasteada”. “Em vão percorremos volumes, /viajamos e nos colorimos. /A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. /Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. /As leis não bastam. Os lírios não nascem /da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra” (Drummond de Andrade).

Para Drummond, não é o muito falar que promove discursos memoráveis. Poeta mineiro é poeta desconfiado, assim, ele segue economizando palavras, mantendo a ética e denunciando as desmedidas, sem isentar-se da culpa, como mostra sua escrita “Sentimento do Mundo”: “Quando me levantar, o céu /estará morto e saqueado, /eu mesmo estarei morto, /morto meu desejo, morto/ o pântano sem acordes”. Temo, como Drummond, acordar tardiamente, tendo eu me esquecido de sacudir a poeira da atitude.
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