24/09/2021 às 08h00min - Atualizada em 24/09/2021 às 08h00min

Lendas urbanas

WILLIAM H STUTZ
São meio lamarquianas, coisa de geração espontânea. Diferentemente dos folclóricos e na maioria das vezes surreais “causos”, como a história da jibóia que mamava em uma mulher e colocava a ponta do rabo na boca da criança para que ela não chorasse. A pobre criança, contam, estava à beira da morte, definhando de fome. Pessoas nos juraram que chegaram a ver a tal cobra em ação e com certeza algum leitor vai reafirmar que esta história é verídica pois um tio do primo, neto do avô do vizinho, que era uma pessoa íntegra, incapaz de uma mentira também presenciou o ocorrido.

Já as lendas urbanas primam pela boa narrativa e pelo conteúdo: pessoas, locais e endereços supostamente reais são citados com tal riqueza de detalhes que sempre deixam uma pequena ponta de dúvida. Claro, existem aquelas que tão esdrúxulas ficam mais próximas dos “causos”, como a do homem cirurgicamente suturado, encontrado vivo, anestesiado, dentro de uma banheira de gelo em um motel depois de ter seus rins retirados.

Volta e meia rola uma “história verdadeira” pela internet, raro aquele que não recebeu uma. Ou foi uma serpente que matou uma criança num parquinho, ou um escorpião que ferroou e matou uma jovem num bar, ou ainda a surreal história de uma pessoa que se tornou soropositiva para HIV depois de espetar pé numa agulha contaminada propositalmente colocada numa sala de cinema.

Gevilacio Aguiar Coelho de Moura em “As lendas urbanas, as lendas da Internet e as pulhas virtuais” nos relata com muita propriedade: “Com a Internet, os rumores, boatos, lendas e assemelhados ganharam uma extraordinária força de reprodução. O que antes era divulgado boca-a-boca e através de cartas ou fax agora ganhou um veículo muito mais eficiente. Uma mentira, uma lenda, uma falsa notícia pode ser enviada ou reenviada a uma enorme quantidade de pessoas com uns poucos comandos ou com o pressionar de umas poucas teclas.”

Vivemos num mundo conturbado, onde a descrença nos atormenta constantemente e a esperança de dias melhores fica às vezes distante, praticamente inatingível. Infelizmente pessoas de gosto duvidoso se aproveitam destas fraquezas e usam do anonimato para infernizar ainda mais a nossa vida com “relatos que, às vezes, trazem um viés (!) de verdade, um aspecto que as tornam plausíveis ou verossímeis e que chegam a perturbar um espírito mais crédulo, um bom samaritano virtual.” Fazendo minhas as palavras do já citado Gevilacio Aguiar.

Portanto, temos que ter espírito aberto, desprendimento e senso do ridículo ao ler e principalmente repassar informações de conteúdo duvidoso para não contribuir ainda mais com a propagação destes absurdos, que além de satisfazer muito às mentes doentias que as criam, trazem sempre um pouquinho mais de insegurança e desesperança para quem as recebe.
Quanto ao perfil dos criadores e propagadores destas lendas urbanas, fica aqui uma sugestão para psicólogos e outros profissionais estudiosos do comportamento humano: que prato cheio para uma tese de doutorado!
 
 
 
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