16/09/2021 às 08h00min - Atualizada em 16/09/2021 às 08h00min

Alguma ação

IVONE ASSIS
Quando assistimos, a todo instante, pessoas se digladiando em busca de destruir o outro, para tomar posse das conquistas alheias, em vez de, simplesmente, obter suas próprias conquistas, é fácil pensar em uma frase de Albert Schweitzer, publicada em sua obra “Cultura e ética” (1953), que diz: “A ética consiste, pois, em eu sentir a obrigação de encarar todo e qualquer desejo de viver com o mesmo respeito que tenho a meu próprio desejo de viver. Com isso obtemos o princípio básico e infalível da moral. O bem é: conservar e fomentar a vida; o mal: destruí-la e estorvá-la” (SCHWEITZER, 1953, p. 255). Pois “[...] valorizo a minha vida tanto, como todo o desejo de viver que eu encontrar em torno de mim; em consequência disso, não cesso de agir; em consequência disso, crio valores” (1953, p. 19).

O humanista Albert Schweitzer nasceu há um século e meio, e em suas muitas qualidades, como musicista que era, carregava também a sensibilidade da arte; e como médico, a sensibilidade da vida; e como poeta, a sensibilidade da palavra; e como teólogo e pregador, a sensibilidade da fé; e, enquanto filósofo, atrelado à base das formações já citadas, carregava a sensibilidade social e lógica, a observar o próprio homem e o seu entorno. De seus saberes e humanismo, eis que surge a frase “O homem perdeu a sua capacidade de prever e de prevenir. Ele acabará destruindo a Terra”.

Schweitzer ensina que “A ética do respeito à vida fornece-nos as armas que devemos empregar contra a pseudo-ética e os ideais falsos” (1953, p. 276). A vida é feita de atitude, sem ação só há emoção, e isso é insuficiente para se combater o mal e promover o bem. Ação e emoção são elementos de sustentação humana, em que o primeiro arquiteta e o segundo modela. Assim sendo, para se obter a força necessária para o enfrentamento social contra a fome, contra a injustiça, contra a doença, contra a miserabilidade, contra a ignorância e tantos outros males, é preciso o espírito humanitário. É a determinação que promove a ação. Pois, “Somente quando existir grande número de pessoas a promoverem, nos seus pensamentos e atos, a discussão entre o espírito humanitário e a realidade, deixará a humanidade de ser considerada como uma ideia sentimentalista, para tornar-se o que deve ser: um fermento da mentalidade individual e coletiva” (1953, p. 276).

E como fermento que era, Albert Schweitzer, dentre os seus muitos desafios, na África, sem recurso algum, montou seu consultório em um velho galinheiro, e desse modo, com ética e conhecimento, pode salvar muitas vidas, sobretudo de hansenianos. De um campo de concentração ele escreveu sobre o declínio humano, e foi com a renda de seus livros que ele manteve alguns pavilhões hospitalares, no pós-guerra.
Com o respeito à vida, de qualquer natureza, Schweitzer escreveu: “O camponês, muito embora tenha ceifado milhares de flores no seu campo, para alimentar o gado, deve, quando regressar à sua casa, evitar de decapitar por mera brincadeira uma flor à beira da estrada, uma vez que com isso cometeria um crime contra a vida, sem que a necessidade o coagisse a fazê-lo” (1953, p. 265). Afinal, a ética deve alcançar a todos e tudo. É por meio da consciência em relação à vida que se pratica a ética, e se compreende o valor de cada qual.

O homem só será ético quando “A vida como tal lhe [for] sagrada”, respeitando a vida humana, a vida animal e a vida vegetal. A ética exige o cuidado individual e coletivo, para com todos. Afinal, no fantástico cenário da vida, “Não podeis dizer onde termina o rio, [nem] onde começa a terra”. (SCHWEITZER, in: HAGEDORN, “O Profeta das Selvas”, 1975, p. 13). Então, como o próprio Schweitzer escreve: “Vivo minha vida em Deus, na misteriosa personalidade divina e ética que não reconheço dessa forma no mundo, mas apenas a vivo como um anseio misterioso em mim”. Desse modo, vou rascunhando um pouco de humanismo em mim, em busca de promover alguma ação.


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