02/09/2021 às 08h00min - Atualizada em 02/09/2021 às 08h00min

Amor à palavra

IVONE ASSIS
Os “Anos dourados” do rádio no Brasil se deram nas décadas de 1940 e 1950, período em que as radionovelas preenchiam o imaginário social, sobretudo entre o público feminino. De lá para cá, vieram a televisão, o cinema, o computador, o celular e a Internet. Esta última encontrou um modo de reacender todas as mídias, e ainda criar um extenso banco de dados, para que gerações atuais e futuras possam acompanhar a história. O rádio foi “remoçado” e vieram o podcast, a rádio web, as lives... para agregar mais valor. E foi na Era Digital que eu fui convidada a compor o universo do rádio. Em um tempo líquido, como o que vivemos, ver o rádio se adaptar e sobreviver com tanta maestria é algo admirável.

Para o mundo das imagens, no qual vivemos, é quase impossível que as duas últimas gerações sequer tenham noção do que era uma radionovela, a qual funcionava como ativador de imaginário, em que o ouvinte criava, individualmente, o rosto dos mocinhos e dos bandidos e os movimentos que construíam as cenas. Tratava-se de um processo muito criativo e era preciso ser muito artista para levar todas as percepções ao ouvinte. O trabalho conjunto entre narrador, atores e sonoplastas era uma verdadeira arte.

Ser autor de textos ficcionais radiofônicos e dirigir criações para o rádio exigem muita criatividade, pois há entre o texto e o ouvinte toda uma gama de recursos necessários, que chamamos de sonoplastia, que envolve (trilha sonora, ruídos, recursos de voz...), no entanto, havia uma forte batalha entre os intelectuais de rádio e de academia, uma vez que esses últimos não aceitavam compartilhar da mesma classificação de criação dos primeiros, por considerá-los menores. É algo bem próximo ao que assistimos hoje entre a academia e os escritores de autoajuda.

Roland Barthes (1987, p. 23-24) afirma: “Eu amo o texto porque ele é para mim esse espaço raro da linguagem, do qual está ausente toda cena (no sentido doméstico, conjugal do termo), toda logomaquia. O texto não é nunca um diálogo: não há risco nenhum de fingimento, de agressão, de chantagem, nenhuma rivalidade de idioletos; ele institui no seio da relação humana corrente uma espécie de ilhota, manifesta a natureza associal do prazer (só o lazer é social), deixa entrever a verdade escandalosa da fruição: que ela poderia muito bem ser, abolido todo o imaginário da fala, neutra”.

Há 80 anos, em 05/06/1941 foi ao ar, ou melhor, ao rádio, a primeira radionovela do Brasil: “Em busca da felicidade”. Há dois meses, quando buscamos sobreviver à maior pandemia de todos os tempos, quando o homem está envolvido em ampliar os ônibus espaciais... o mundo assistiu à recriação de parte do roteiro dessa radionovela, mas, agora, em um set de gravação que vai além da voz. O público pode acompanhar a recriação da sonoplastia, pode ver os atores e, mais ainda, pôde conhecer o estúdio original da Rádio Nacional, totalmente preservado. O processo multimídia deu uma roupagem incrível ao evento.

Nesta semana, dia 31 de agosto de 2021, quando Uberlândia celebrou seus 135 anos, nesta mesma data, o programa “Trocando em miúdos”, da Rádio Universitária, sob o comando do mestre Márcio Alvarenga, comemorou 34 anos de ondas curtas. A data foi festejada em estilo de eventos em dias de pandemia Covid-19, ou seja, por meio de uma live, fazendo uso do recurso multimidia que se tem às mãos. Foi mais um momento em que o rádio se posicionou, lembrando que está mais vivo do que nunca e aberto a novas ideias. Nesta mesma Rádio, nas segundas-feiras eu busco levar a literatura aos ouvintes, então, juntos, almoçamos poemas, contos, narrativas diversas... E assim a literatura, aliada ao rádio, vai, igualmente, se fazendo resistência, da mesma forma que a Literato e o jornal impresso, hoje, se posicionam em trincheiras. Não se trata de teimosia, mas, sim, amor à palavra.

Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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