19/08/2021 às 08h00min - Atualizada em 19/08/2021 às 08h00min

Pechisbeques

IVONE ASSIS
Sempre tive grande paixão pela língua portuguesa. É que as palavras sempre encontram uma forma de me encantar e me inquietar. Quando penso que dissequei um significado, lá vem a mesma palavra, outra vez, me desafiando, feito adolescente, cheia de razão e de teimas. Desses desafios vocabulares, escolhi mostrar a palavrinha (ou palavrão?!) Pechisbeque.
 
À primeira pronúncia, a palavra soa macia sob os aspectos da sintaxe, da fonologia, da fonética, da morfologia, mas quando pensada na semântica atiça um pouco mais os sentidos, aí chega a tal pragmática, para nos arrancar o sossego com a palavra. Natália Correia, em ‘Diva’, in: “Diário do último ano ...”, de Florbela Espanca (1982, 2. ed., p. 10), traz: “Esse pechisbeque fulgente do cognato frívolo da sua personalidade sequiosa de infinito [...] chispa nas fulgurantes banalidades dos seus versos [...]”, e assim o Diário segue narrando a solidão de uma vida cheia de adereços pechisbeques.
 
Já Lima Barreto, em “Histórias e sonhos”, no conto ‘O feiticeiro e o deputado’ (1920, p. 55. 1.ª ed.), escreve: “— De que te admiras? Venho a este barracão imundo, feio, pechisbeque, que faz todo o Brasil roubar, matar, prevaricar, adulterar, a fim de rir-me dessa gente que tem as almas candidatas [...].”
 
Ruy Barbosa, por sua vez, em “Caim” (Diário de notícias, 1 de fevereiro de 1912), registra: “— Acusado, bradas alto, mas oco. Roncas, mas não persuades. [...] A virtude, na tua moral, como o azeviche das tuas cãs enegrecidas a tinta, em tua cabeça de qüinquagenário à beira dos sessenta anos. Os teus serviços, como os pechisbeques e bugingangas de mascataria [...]”.
 
Não poderia deixar de citar o imortal João do Rio, que entre 1904 a 1907, publicou “A alma encantadora das ruas”, dizendo: “Os vestidos são pobres: saias escuras sempre as mesmas; blusa de chitinha rala [...]. Mas essa miséria é limpa, escovada [...]. Há [...] turquesas falsas. Quantos sacrifícios essa limpeza não representa? Quantas concessões não atestam, talvez, os modestos pechisbeques! Elas acordaram cedo, foram trabalhar”.  Assim o cronista vai descrevendo as moças observadas de sua janela, ou nas ruas cariocas.
 
Mas, quem me apresentou essa Pechisbeque foi Monteiro Lobato, em sua “Carta-prefácio”, para a obra “Aspectos de nossa economia rural”, de Paulo Pinto de Carvalho: “São Paulo, 9/7/1943. Prezado senhor, [...] nunca vi tantas verdades, tanto pragmatismo, tanta visualização exata das realidades, concentradas em tão poucas páginas [...]. E se esses [...] ineptos que nos governam por delegação própria enxergassem um milímetro adiante do nariz, o senhor seria convidado para [ser] o órgão pensante do governo.
 
O órgão que pensasse com o cérebro, porque cada vez mais me convenço de que eles pensam com o rabo. [...] Sentados em cima de gigantescas riquezas potenciais, somos um país de pé no chão, miseravelmente vestido, miseravelmente alimentado e miseravelmente governado – e hoje destituído até desse oxigênio político dos povos, que é a liberdade de manifestação de pensamento. E a política dos que nos governam à força é a do avestruz diante do perigo: esconder a cabeça [...]. Somos cada vez mais a maior vergonha do mundo. Caiação oficial por fora, dourados de pechisbeques – e bicheiras roedoras por dentro [...]”.
 
A literatura me invade. Feito João do Rio, fico a observar severinas, carolinas, macabeas, capitus, diadorins, marílias, marias... Então, a exemplo de Camilo Castelo Branco, em “Coração, cabeça e estômago”: “Pode ser que este aranzel de coisas nunca faça gemer os prelos do meu país; porém, quem me diz a mim que eu não tenha o póstumo regalo de ser impresso e lido? [...] quisera eu vestir a nudez dos meus contos”, buscando catar o aproveitável entre o frívolo e “as securas da verdade, dura de engolir neste tempo”. E no desafio da palavra, enquanto assisto, na TV, o retrocesso afegão, rodo a vinheta nacional em busca de algum nome que tenha sido ouro no sistema, contudo só encontro pechisbeques.

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