12/08/2021 às 08h00min - Atualizada em 12/08/2021 às 08h00min

Destituindo reversos

IVONE ASSIS
Lendo Carlos Drummond de Andrade, “A rosa do povo” (2007, p. 199), deparei-me com a frase “Esses homens estão silenciosos, mas sorriem de tanto sofrimento dominado. Sou apenas o sorriso na face de um homem calado”. Trouxe a frase para o meu instante, pois, de repente, vi o riso silenciado de médicos e sobreviventes. Profissionais que lidam na linha de frente da Covid-19, plantonistas de prontos-socorros e UTIs, a todo instante ganha-se ou se perde alguém, e são poucas as vezes em que paramos para pensar no psicológico desses profissionais que, além de lidar com a vida e a morte, pregadas em seus instrumentais, precisam lidar com o desespero (e muitas vezes o desatino) dos familiares daqueles que perderam a vida. A ciência é algo fabuloso, e está a todo instante em busca de melhorias, para que mais e mais pessoas sejam beneficiadas, no entanto, Deus nos fez finitos nesta vida, por isso há o momento de perda do fôlego. O fato é que ninguém quer perder seus entes queridos, e há situações em que o desespero toma conta, afinal somos humanos, e é próprio do homem errar e acertar, chorar e sorrir, perder e ganhar... O que nos esquecemos é de que aqueles que trabalham em busca de trazer a cura (médicos, enfermeiros e afins), eles também são humanos, consequentemente, são passíveis das mesmas grandezas e fraquezas.

Por outro lado, há aqueles pacientes cuja voz é emudecida, pela simplicidade em que vivem, e não conseguem se ver merecedores, acatando todas as migalhas, como se fossem dignos somente daquele quase nada, vazio e penoso. Mas a poesia serve de alento, “portanto, é possível distribuir minha solidão, torná-la meio de conhecimento”. Nesse caso, a “solidão é palavra de amor. / Não é mais um crime, um vício, o desencanto das coisas. / Ela fixa no tempo a memória” (DRUMMOND, 2007, p. 199). Há de ter algum acerto nisso, algo que sirva de aprendizado, e contribua para um amanhã menos doentio de solidão, cujo tempo possa permitir ao homem que se abrace, e se respeite, e se valorize, e compreenda as razões, a fim de evitar as desrazões.

No poema “De mãos dadas”, Drummond anuncia: “O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”. O poeta escreve sobre o que vê, vive e vivencia, porque a poesia é sua leitura de mundo. “Poeta do finito e da matéria,/ cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,/ boca tão seca, mas ardor tão casto. [...] Como fugir ao mínimo objeto/ou recusar-se ao grande? Os temas passam,/ eu sei que passarão, mas tu resistes” (DRUMMOND, Poesias completas, 2007, p. 116). Nesse poema, o poeta vai rasgando o tempo e a história e “ferozmente” vai expondo ao mundo suas impressões literárias, como resistência multifacetada. Ele vai apregoando sobre as escolhas, ciente de que a dor existe, mas a alegria também, e se não se pode mudar o destino, que se mude a forma de o narrar. Assim, quando tudo se passar, o poema estará lá, cortado pelas estrofes, mutilado pelas interpretações, porém, vivo e adocicado pelos versos, para não deixar que a história morra.

Alfredo Bosi, em “O ser e o tempo da poesia” (1977, p. 142), explana sobre a poesia enquanto resistência e subversão, dizendo: “Na verdade, a resistência também cresceu junto com a ‘má positividade’ do sistema. [...] A poesia há muito que não consegue integrar-se, feliz, nos discursos correntes da sociedade”. E completa: “A resistência tem muitas faces. Ora propõe a recuperação do sentido comunitário perdido (poesia mítica, poesia da natureza); ora a melodia dos afetos em plena defensiva (lirismo de confissão [...]); ora a crítica direta ou velada da desordem estabelecida (vertente da sátira, da paródia [...]). (BOSI, 1977, p. 143-144)”. Em cada interpretação, uma possibilidade. A poesia, seja “nostálgica, crítica ou utópica”, “abriu caminho caminhando”.

Então, enquanto faço, das abas da palavra, uma voz para agradecer, para defender, para dominar sofrimentos, sigo desfiando versos e destituindo reversos.

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