10/06/2021 às 08h00min - Atualizada em 10/06/2021 às 08h00min

Obstinados a vencer

IVONE ASSIS
A Ciranda Cultural, na série Histórias Fantásticas, traz “A raposa e as uvas”, uma história que nos faz refletir. Após o almoço, a raposa Juju se pôs a desejar uma Sobremesa. Caminhou até avistar uma parreira carregada. A raposa saltou em sua direção, mas nada de alcançar. Saltou e saltou, e nada. Ela partiu para um plano B, começou a escalar a parreira. Mas quem disse que raposas sobem em troncos? Ah, sim, parreiras são trepadeiras, não têm tronco, contudo são sustentados por um pergolado de madeira, e era nesses pauzinhos que Juju tentava subir, para alcançar as uvas, no alto. Espere aí. Não, não. Aqui neste livro a parreira é uma árvore frondosa. Como diria nosso saudoso Ariano Suassuna, na voz de Chicó, se questionado como isso aconteceu: “Sei não, só sei que foi assim”.
 
De volta à aventura de Juju, a raposa buscou um bambu enorme e parafraseou Maomé: “Se eu não consigo ir até [às] uvas, elas virão até mim”. Embora, no caso original, o monte Safa tenha se mantido firme no lugar, e quando Maomé foi desafiado a movê-lo, e não conseguiu, agradecido (e para agradecer a Deus, pela misericórdia em não esmagar a todos com o monte) proferiu: “Se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha”. E assim o fez, para orar e agradecer. Crases e ordens das palavras fazem toda a diferença em um contexto. Foram várias vãs tentativas.
 
Ante a dificuldade, a raposa lançou o lenço branco, desistindo e maldizendo: “Eu nem queria essas uvas mesmo. Tenho certeza de que estão todas verdes e azedas, podem até me fazer mal”. O ratinho e as borboletas, que a tudo observavam, montaram uma equipe. Enquanto o rato roía o caule que segurava as uvas, as borboletas o motivavam, mantendo sua calma e não o deixando desistir e ainda abanavam suas asinhas, refrescando-lhe o rosto suado, de tanto roer. A força psicológica é tão importante quanto a física. Juntos, apanharam as uvas. “As uvas estão doces feito mel. A raposa só desdenhou delas porque não conseguiu pegá-las. Afinal, é muito fácil criticar o que não conseguimos alcançar”, disse o ratinho às duas borboletas.
 
A todo instante há expectadores desafiando seus líderes que ordenem aos montes que se lancem de um lugar para outro, e estes, não conseguindo, geralmente, desistem, para o delírio da plateia. Neste ano, o manobrista Romário foi desafiado a transportar o seu monte, após estar desempregado, após ser despejado, e após ter o seu barraco destruído, diante dos olhos estupefatos de seus filhos e sua esposa.
 
De um lado, a concessionária vibrava a reintegração de posse; do outro, famílias sucumbiam. Então Romário, que havia investido toda a sua economia naquele barraco de madeirite, declarou: “[...] ver tudo destruído, com uma máquina passando em cima dos seus sonhos. Eles não passaram só em cima dos barracos e destruíram a moradia das pessoas. Eles destruíram sonhos”. Romário foi desafiado a mover a montanha, mas a montanha não se moveu. Em vez de desistir, ele pegou os seus e foram até a montanha. Com fé, resiliência, amor, ele conclui: “Eu procuro ser feliz. A vida vai bater e eu sempre vou me levantar, limpar a poeira, e dar a volta, por cima, de novo”. Penso que até a tela do noticiário se comoveu, naquela hora.
 
A máquina solapou sonhos e soterrou memórias. Dentre estas, estão objetos pessoais e fotografias. Quando se tem quase nada, uma fotografia pode representar uma vida inteira. Fotografias de família são tesouros impagáveis. Registrar os fatos é ampliar vivências. A literatura tem esse poder incrível de nos fazer refletir, de nos apontar caminhos, de abrir nossa mente para novas possibilidades.
 
Órfão, Romário é o líder de sua família, e por mais que a raposa desdenhe de sua capacidade, por mais que a multidão o julgue, ele e sua família, como o ratinho e as borboletas, seguem avante, trabalhando em equipe, com amor e união. Ele ensina aos filhos o valor da humildade e da integridade humana. Com honra, Romário e sua prole estão obstinados a vencer.


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