08/06/2021 às 08h00min - Atualizada em 08/06/2021 às 08h00min

Histórias SEM quadrinhos

LUCIANO FERREIRA
Divulgação
Já parou pra pensar que nem sempre as HQ são feitas com quadrinhos? E não estou falando de usar retângulos ou espaços eventuais que não tenha requadros (ou quadros, quadrinhos). São de fato HQ que não usam quadrinhos.
 
Podemos definir os quadrinhos com uma arte narrativa, gráfica e predominantemente sequencial, onde os elementos gráficos são dispostos de forma geralmente linear em suportes variados, geralmente papel, mas também são encontrados suportes escultóricos, tecidos e telas.
 
Para evitar uma complexa e irresponsável discussão antropológica, desconsidero aqui, registros aleatórios ao longo da Pré-História, onde narrativas gráficas com características sequenciais são encontradas na Arte Rupestre.
 
De início, temos os relevos da Coluna de Trajano, construída em 113 DC e localizada em Roma, onde uma sequencia de baixo relevos formam uma narração sequencial de 200 metros de comprimento, sendo a coluna de 30 metros. Presume-se que essa coluna foi projetada pelo arquiteto sírio Apollodorus de Damasco.
 
Já na Idade Média a tapeçaria de Bayeux, feita no século XI, foi produzida como uma sequência de imagens que narravam eventos ocorridos durante a conquista da Inglaterra por Guilherme II. Essa peça mede 70 metros e narra a Batalha de Hastings, mostrando também eventos anteriores e posteriores a esse evento histórico.
 
Tanto a Coluna de Trajano como a Tapeçaria de Bayeux, tem características similares, mas aqui é mais interessante apontar que nenhuma das duas tem a característica mais marcante das HQ como conhecemos hoje, que são os quadros. Ou seja, os quadrinhos propriamente ditos.
 
Saltando as variações ao longo dos séculos, temos trechos de Yellow Kid, Hokusai e Nhô Quim, que entre o século XIX e o século XX, também se deram a liberdade de não usar quadrinhos para ‘’emoldurar’’ os desenhos.
 
Mas talvez o exemplo potencialmente mais polêmico, sejam os requadros de página inteira, também conhecidos como splash pages, onde a narrativa se dá em uma página só, eventualmente em duas páginas, utilizando um único desenho sem quadros ou se utilizando do cenário para substituir o quadro. A HQ ‘’A morte do Superman’’ e o autor estadunidense Chris Ware, são exemplos notáveis no uso desse recurso.
 
O ‘’risco’’ de seguir uma leitura onde o ritmo ou a linearidade fique um tanto em suspenso, vale muito apena, pois nos induz e sedus a outros olhares, outras perspectivas. Mas principalmente porque tende a modificar o ritmo de leitura, pois se considerarmos as sequências de quadros como um ritmo, uma repetição visual, o não-uso de quadros convida o olhar para ir a lugares fora do condicionamento sequencial dos quadros.
 
E às vezes é puro deslumbre visual.
 
 
Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.



 
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