27/05/2021 às 08h00min - Atualizada em 27/05/2021 às 08h00min

A lógica

IVONE ASSIS
A cidade, de certo modo, assusta-me, pela velocidade de suas ruas e pela imensidão de seus sons. Porém, com a pandemia, passei a observar uma mudança dos sons. As noites passaram a ter menos ruídos de carros e mais roncos nas barrigas vazias. São corpos cheios de invisibilidade e mentes recheadas de incertezas. Na obra “Quarto de despejo”, Carolina Maria de Jesus diz: “... Há de existir alguém que, lendo o que eu escrevo, dirá... Isto é mentira! Mas, as misérias são reais” (p. 41).

São milhares de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. Vi um senhor, reciclador, relatar: “Ganho, cerca de, 250,00, por mês”. O vendedor de cocos confidenciou: “Vendo média de 120,00, por dia, descontando o custo, lucro 20,00 por dia. É assim que eu e minha mulher vivemos”. Recorro-me à Carolina Maria de Jesus, que escreveu: “... Eu cato papel, mas não gosto. Então, eu penso: Faz-de-conta que eu estou sonhando” (p. 26).

Carolina de Jesus, escritora, negra, mãe, favelada, semialfabetizada... vê o momento em que os “ocupantes nômades” da cidade são arremessados na favela do Canindé, então, por meio de um relato testemunhal, ela descreve o que seus olhos contemplam (o Invisível que habita a favela do Canindé), dando vida à obra “Quarto de Despejo”. 

A sobrevida de 1960 se mantém e se reproduz com muito mais intensidade em 2021. O quarto de despejo humano foi deixando de ser eco ponto, e passando a ser aterro. Bocas famintas devoram esperança, bebem choro, servem-se de indignação e humilhação. Enquanto o poder público aumenta seu soldo, suas aposentadorias, suas bonificações, seus “direitos”, o país, que rói papelão, vai sendo impossibilitado de se aposentar, vai sendo deletado da sociedade, vai se esfumaçando na nuvem do tablet humano. Os olhos cegos não veem a desdentada boca faminta.

“A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago.” (Carolina Maria de Jesus, 1960, p. 39).

Para este recorte vivente, da carência material à carência humana, já não sei mensurar qual é a maior. A honra e a dignidade não podem ter sexo, cor, idade, nacionalidade... elas são erigidas pelo respeito, pela comida no estômago, pela lucidez, pelo direito de ser, por escolha, verbo, substantivo ou adjetivo. Em qualquer circunstância, cada qual merece ser o protagonista de sua própria história.

Descrever a miserabilidade de um país não muda o cenário, exceto quando agimos. Não se trata de doar gotas de d’água, para parecer bom à sociedade, mas, sim, erguer a voz para que o Direito de Fato se faça valer para os desvalidos, para que todo provedor tenha condições de honrar sua prole, por meio de seu suor. Não se trata de igualdade, porque isso também é utopia, trata-se de decência humana, de política decente, de decoro social... a fim de que o mercado convide a todos. Todo ser vivente deve ter seu uso de voz própria.

Se os princípios humanos fossem ensinados na infância e na adolescência, não haveria tantos presídios abarrotados de mentes desvalidas e/ou dissonantes, nem haveria um poder público abarrotado de mentes dissonantes e/ou desmedidas. Entre a base e o topo temos o meio, este meio é a mente pensante, que teme ferir a base, que pisoteia, e se equilibra, como pode, para manter o topo em seu lugar, sem ser esmagado por ele. A imobilidade do mundo social provoca delírios: êxtase no topo e demência na base. Mas a miserabilidade urge, porque a barriga tem fome. Não há portas entre a caverna e a luz, o que há é uma besta-fera que vigia a entrada dos que estão de fora e a saída dos que estão de dentro, intimidando a todos a ponto de cegá-los. A fome é maior que a lógica.


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