13/05/2021 às 08h35min - Atualizada em 13/05/2021 às 08h35min

Esperança

IVONE ASSIS
Diante de um quadro tão complexo como a nossa realidade pandêmica, é preciso se reinventar todos os dias, para não ficar maluco, para não desesperançar, para encontrar fôlego para alcançar o amanhã. Cada qual se reinventa a seu modo. Alguns frascos de soluções são a fé, a escrita, a live, a culinária, a arte e tantas outras tomadas de decisão.

De algum modo, queremos compartilhar nosso eu com o outro, mas também queremos receber do outro, o seu alento, o seu saber. É um modo de se sentir vivo, atuante, participativo... Muitos optam por ser poeta. E desse modo, desnudar-se em sua poesia. Christyene Alves Faleiros, em sua obra “Retalhos in versos”, escreve: “Sou poeta / E sinto tanto / Cada nuança, alegria / Cada lágrima, simpatia / Sinto o perfume das flores / e as vitórias da vida / Sou poeta / E vivo muito / A intensidade, a canção / O vento, as anedotas / O calor, a emoção / Vivo o presente que me é único / E sigo...” (2021, p. 64). A poética de Faleiros é voltada para a sua intensidade e perseverança, em que o eu lírico encontra-se atento a todos os entretons e emoções, de modo consciente, em não perder o chão. Esse cônscio ativo não deixa dúvidas sobre a necessidade de ser e estar no presente, independentemente daquilo que foi o ontem e daquilo que poderá ser o amanhã.

Igualmente, Bosco de Lima, em sua obra “Memórias da casa velha”, escreve: “Não nasci poeta, / nasci pobre. / As palavras / encheram meu baú, / fizeram-me sê-lo” (2015, p. 28). Ambos os textos evidenciam sua condição de poeta e sua jornada circunstancial e/ou determinante. De um lado, em Faleiros, temos o arquétipo de um anti-herói talvez, cujas circunstâncias lhe impregna todas as emoções – ele estica e encolhe, ri e chora... – mas não desiste de seu objetivo, o de “seguir adiante”, o de ser o “Agora”. Do outro, Lima apresenta claramente o arquétipo de um herói circunstancial, em que o poeta vai se moldando, conforme os acontecimentos, não deixando dúvidas de que seu eu-lírico busca na experiência (as palavras) a força e a determinação, para se consolidar no presente (fizeram-me sê-lo). Ele poderia ter escolhido, nas mesmas palavras, ser anedota, ser tragédia, mas, não, ele opta por ser poeta, com toda a sua intensidade. Essa transitoriedade é um crescendo, uma evolução, um passo positivo, em sua consolidação.

Toda essa minha leitura de herói ou anti-herói é para apresentar a transitoriedade, não deixando dúvidas de que a vida é pedagógica. De que viver é dialogar com sua maturidade, é ver e sentir o todo sem se perder no frágil. A pandemia tem nos massacrado de todas as formas. Alguns são destruídos fisicamente, não deixando dúvidas da assolação à qual foi submetido. Não precisa de símbolos, nem arquétipos, nem metáforas, nem nada, para que sua destruição seja notória, porque o fato se encarregou de mostrar a trágico resultado. Outros, minados pela dor, pelo cerco que vai se fechando em si, agarra-se à esperança, moldado pelas circunstâncias, de se manter presente. Como muito bem nos ensina Guimarães Rosa sobre a vida, “o que ela quer da gente é coragem”, pois “um léxico só não é suficiente” para descrevê-la.

Todos os dias, temos contemplado, boquiabertos, a batalha pela sobrevivência, neste inóspito “mundão de: meu Deus, que isso?!”. Mesmo assim, ainda persistem os vilões, que caminham na contramão da razão, promovendo ainda mais a dor. Exemplos clássicos de vilões são estampados a todo instante no jornalismo policial. Mas isso não apaga, nem diminui, os heróis clássicos ou de circunstâncias, os anti-heróis, com toda a sua transitoriedade, os quais, a seu modo, travam uma luta ferrenha para que o bem prevaleça, para manter a sanidade humana em alta. Os tempos são sombrios, mas o Sol não se rende. A cada manhã, seu brilho anuncia que, mesmo em águas turvas, ainda é possível ter esperança.



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