27/04/2021 às 09h51min - Atualizada em 27/04/2021 às 09h51min

Ditadura no Ar: uma HQ que rememora um dos períodos mais violentos da história do Brasil

CHICO DE ASSIS
Fragmento da HQ Ditadura no Ar, Coração Selvagem de Raphael Fernandes e Abel (2016) | Divulgação
Escrevo estas linhas no ano em que se completam 57 anos do Golpe de Estado promovido pelos militares no Brasil, com apoio da elite brasileira, parte da sociedade civil e da Igreja Católica. Naquele 31 de março de 1964, iniciou-se uma série de eventos que encerraram o governo do presidente eleito, João Goulart, e marcou o fim da nossa democracia. Foram mais de 20 anos de uma cruel ditadura, que perseguiu, assassinou, torturou, prendeu e censurou qualquer oposição. Foram anos de um regime duro que restringiu e retirou dos brasileiros o gozo de seus direitos como cidadãos, sua liberdade de expressão, seu direito de protestar; foi, além disso, um governo que priorizou medidas econômicas que aprofundaram a desigualdade social no Brasil.

Considero que relembrar a história é parte fundamental da construção da nossa cidadania. Manter a memória viva é se manter atento às mudanças, é dar sentido ao presente, é identificar nossas vitórias e encarar nossas derrotas, é impedir que governos autoritários se consolidem novamente. Mas não é apenas o historiador que cumpre essa função. O registro artístico e a produção cultural tem papel fundamental na manutenção dessa memória.

Ditadura no Ar, Coração Selvagem é uma HQ que cumpre este papel com excelência. O romance policial em quadrinhos é ambientado em 1969, após o AI-5 (Ato Institucional Número Cinco), o mais duro de todos os Atos Institucionais, emitido em 13 de dezembro de 1968, e demonstra preocupação impecável com a verdade histórica, retratando o imaginário da época: linguagem, gírias, vestimentas, o clima de terror que pairava no ar.

A história de ficção é protagonizada pelo fotógrafo Félix, que mesmo não se envolvendo diretamente com a política institucional, após o desaparecimento de sua namorada e estudante Nina, passa a procurá-la e é perseguido pelos agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Nina foi presa em uma manifestação estudantil e pacífica e nunca mais foi vista.

No enredo de Ditadura no Ar, Coração Selvagem, a história de Félix é atravessada pela história de outras personagens que tornam a narrativa ainda mais complexa e interessante. A rotina de trabalho de Félix em um jornal, por exemplo, é fundamental para entendermos a censura prévia, o autoritarismo da própria imprensa e a influência dos militares nas publicações. Todas as personagens que cruzam a jornada do protagonista à procura de Nina têm sua história contada: exílio, tortura, assassinato, perseguição, manifestações pacíficas e luta armada. A palavra comunista ganha destaque nesta trama de opressão e criminalização de ideias.

Félix não queria derrubar o governo. Mas conheceu essa mulher sonhadora e se apaixonou pela estudante que desejava mudar o Brasil. Nessa narrativa, o protagonista da história, fotógrafo apaixonado, foi perseguido pelos bedéis do governo porque ousou procurar sua amada, raptada pelo Estado brasileiro. 

Ditadura no Ar, Coração Selvagem é uma HQ envolvente. Seja pela qualidade artística dos desenhos do cartunista Abel, seja pelo roteiro assertivo de Raphael Fernandes. Você vai se emocionar, se identificar com as personagens, e compreender um pouco melhor a dinâmica da ditadura vivida no Brasil entre 1964 e 1985.




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