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15/04/2021 às 15h04min - Atualizada em 15/04/2021 às 15h04min

Estratégias

IVONE ASSIS
O medo é o maior algoz de um ser vivente. São milhares, talvez milhões de literaturas – seja na arte, na saúde ou outras – que abordam o medo em diferentes circunstâncias. Quando o medo recai sobre uma pessoa (adulto ou criança), esta vai, aos poucos, deixando de viver. Quando o medo abraça alguém, a vulnerabilidade a devora.

A obra “Falo? ou não falo?...”, de Fátima Cristina de Souza Conte e Maria Zilah da Silva Brandão (2007, p. 10), declara, quando nos sentimos “prejudicados pelo outro e temos que ser firmes com ele, a ansiedade tende a ser maior. Podemos ficar com medo de nos manifestar. Fugimos ficando quietos, vamos nos fingindo de mortos e não confrontamos o ‘inimigo’. Se a pessoa é agressiva, controla ou bloqueia nossa expressão, é ruim; ficamos frustrados, com mais raiva e ainda predispostos a fugir ou a agredir de volta”.
Para Conte e Brandão (2007, p. 10): “[...] se nossas experiências [...] indicam que podemos nos expressar a partir do que estamos sentindo, em vez de a partir do que o outro está esperando, então, mesmo diante do medo, tenderemos a ser sinceros e a enfrentá-lo”. É a conversa agindo.

A questão é quando a autoconfiança é bloqueada e a vítima não é capaz de se proteger, temendo não só dialogar com a parte opressora, mas incapacitando-se ainda de buscar ajuda externa. Neste mês, assistimos, estarrecidos, a insanidade de um casal que ceifou a vida do próprio filho, o menino Henry, de 4 anos de idade, após meses de tortura e violência. A criança, tomada pelo medo, tentou pedir ajuda, mas não conseguiu ser compreendida e nem ajudada a tempo. Outro exemplo de incapacidade de enfrentamento é o caso Maria das Graças de Sousa Rodrigues, de 74 anos, desaparecida desde 1969. A senhora, de uns 40 kg, vivia em cárcere privado, próximo a uma delegacia do Rio, junto a dezenas de cães e pombos. O medo a silenciou por uma vida inteira, até que, nesta semana, esse episódio de terror terminou.

Em um mundo que tanto se fala em tempo real, viagem à lua, habitação em Marte, robótica... milhares de pessoas sucumbem todos os dias diante da opressão, do medo, da loucura alheia. O mundo carece de mais investimento em humanismo, para que o medo seja destronado. Faltam ações assertivas de segurança. Faltam investimentos em capital humano, para que o ser compreenda o quanto a vida é valiosa, o quanto a liberdade de expressão é essencial. Lembrando que liberdade não se confunde com abuso; qualquer livre-arbítrio que prejudica a liberdade do outro, este migra de liberdade para opressão.

O medo paralisa. Ainda, de acordo com Conte e Brandão (2007, p. 40): “Existem duas maneiras para você lidar com os medos, dentre eles o medo de perder. Uma, é você olhar para o seu medo e fugir dele. Como se ele fosse um monstro [...]. Quando corre e fica um pouco mais longe do monstro, o medo diminui. Quando o medo diminui, [...] interessado em ver o que está para além da porta”, a vítima se aproxima novamente, gerando um círculo vicioso. A outra maneira de enfrentamento é “[...] olhar os seus monstros-medo bem nos olhos deles, assim, direto”. Depois, atravessá-los. Nesse caso, descobrimos que o terrível monstro não passava de uma sombra, a qual agigantamos.

Na obra “O medo do escuro”, de minha autoria, a criança abre um diálogo, olho no olho, com o Medo, um monstro noturno que a aterroriza, e, por meio do diálogo, o menino reestabelece sua autoconfiança, vencendo o medo. A literatura aciona a criatividade de nossos pequenos, ensinando-os a fortalecer sua autodefesa. É essencial que os bons livros não sejam trocados pelos jogos eletrônicos, durante a formação psíquica da criança. A rotina de uma criança pede aprendizados e ludicidade, amor e compreensão. Que haja livros, brincadeiras, histórias, jogos, tecnologias, invencionices, propiciando o eco de cada um, lembrando, porém, que o diálogo e a leitura são os que propiciam maior reflexão à criança, e ao ser humano em geral, pois das palavras é que se extraem as estratégias.



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