08/04/2021 às 18h22min - Atualizada em 08/04/2021 às 18h22min

História contada

IVONE ASSIS
A comunicação se faz por meio da compreensão e dos significados. Bruno Bettelheim, em “A psicanálise dos contos de fadas” (Paz e Terra, 1980), apresenta um ensinamento profundo sobre essa temática. Ensina que, se queremos viver conscientes “de nossa existência, nossa maior necessidade e mais difícil realização será encontrar um significado em nossas vidas” (BETTELHEIM, 1980).

Quantos não são aqueles que, aparentemente, tendo tudo, não conseguem se encontrar dentro da própria vida? É o saber do significado que constrói o desejo de ser e/ou estar. Um diálogo, por exemplo, ainda que se compreenda o episódio, se não houver significado, a conversa não fluirá, porque o fato não prendeu o ouvinte. Mas, na vida, o diálogo é entre o consciente e o inconsciente, entre o desejo e o próprio ser. Isso se torna mais delicado ainda. “Uma compreensão do significado da própria vida não é subitamente adquirida numa certa idade, nem mesmo quando se alcança a maturidade cronológica. Ao contrário, a aquisição de uma compreensão segura do que o significado da própria vida pode ou deveria ser é o que constitui a maturidade psicológica” (BETTELHEIM, 1980).

E tal maturidade interna não brota do nada, nem mesmo possui receitas prontas. Não é conquistada com cargos, títulos, objetos ou afins... a maturidade psicológica é fruto de um processo de significação. É como lançar semente em terra seca e convencê-la de que ela é capaz de encontrar meios de brotar, florir e frutificar; e de fato a semente prosperar. É um processo árduo, moroso, mas possível. Por mais difícil que seja o clima, a sementinha encontrará alternativas que a faça brotar, porque está dentro dela o querer, o significado, a força.

“A cada idade buscamos e devemos ser capazes de achar alguma quantidade módica de significado congruente com o ‘quanto’ nossa mente e compreensão já se desenvolveram” (BETTELHEIM, 1980), porque isso também é evoluir, porque a sabedoria “é construída por pequenos passos a partir do começo mais irracional” (BETTELHEIM, 1980).

A maturidade, como a própria palavra diz, vem com o tempo, com a madureza da idade – psicológica, e não cronológica –, trata-se da evolução do próprio ser. Cada qual deve encontrar sua própria razão de ser e estar. “A tarefa mais importante e também mais difícil na criação de uma criança é ajudá-la a encontrar significado na vida. [...] Muitas experiências são necessárias para se chegar a isso. A criança, à medida que se desenvolve, deve aprender passo a passo a se entender melhor” (BETTELHEIM, 1980), e assim, tornar-se capaz de compreender o outro, de modo satisfatório. Os livros são condutores a esse universo da significação. Um grande exemplo foi a cartilha “Caminho Suave”, de Branca Alves de Lima. Depois, vão chegando os livros, para dar maior suporte e amadurecimento aos saberes. Esse processo literário de aprendizagem e significação é ornado pela Contação de Histórias. Essa poderosa ferramenta atua em todas as idades, em todos os setores profissionais, por toda a vida. A cada situação, traz uma roupagem, mas é sempre uma história.

Os Contos de Fadas, segundo Bettelheim (1980), contribuem no domínio de problemas psicológicos como: “superar decepções narcisistas, dilemas edípicos, rivalidades fraternas, ser capaz de abandonar dependências infantis; obter um sentimento de individualidade e de autovalorização, e um sentido de obrigação moral – a criança necessita entender o que está se passando dentro de seu eu inconsciente”. “Chapeuzinho Vermelho” é um conto maravilhoso, que ilustra muito bem este conceito. Um conto pensado para narrativas folclóricas, com seus grotescos e amoral, que foi, aos poucos, recebendo uma roupagem mais amena. Uma história com a intempestividade adolescente, mas com sua importância em todas as faixas etárias.

Por mais tecnológica que esteja a nossa Era, e por mais virtual e robótica que seja a vida futura, o porta-voz da formação de criança e da reflexão humana será a história contada.



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