01/04/2021 às 09h52min - Atualizada em 01/04/2021 às 09h52min

O poeta se fez poesia

IVONE ASSIS
“Em minha infância, jamais entendi a morte. O medo da morte não chegava a mim, o que eu, realmente, não compreendia era por que as pessoas trocavam a vida, tão perfeita, pela morte, tão estúpida. Como se isso fosse algo que se escolhe. Assim foi, até o dia em que senti o desejo de ‘aumentar o vazio’, na tentativa de eliminá-lo. Esse sombrio pensamento me era imposto pela saudade da infância, pela falta do canto da rolinha, pelo som de minha canção preferida, pela ausência de minha Glória, que voou para longe, deixando muita saudade. Se não morri no corpo, por muito tempo morri no espírito. Após ‘sentir’ o dissabor da morte, e ser visitado pela vida, entendi que viver é muito melhor. Assim, saí de mãos dadas com a vida, contando histórias. De vez em quando, a valsa soa aos meus ouvidos, então, canto-a para dominá-la em meu canto, superar meu pranto e viver meu encanto” (Juarez Altafin, in: Assis, 2011, p. 24).

Resposta de Altafin, quando o indaguei sobre os assombros da morte, sobretudo na infância, cujos temores são maiores, e a morte nem sempre é uma situação bem resolvida. Era 2010, eu estruturava “Escritural de Contornos biográficos: Juarez Altafin”, homenagem àquele que foi o primeiro reitor (nominado) da Universidade Federal de Uberlândia.

Entre as décadas de 1960 e 1970 abriram-se os horizontes acadêmicos de Uberlândia, por meio dos esforços de Jacy de Assis e Juarez Altafin. Assunto que servirá de discussão para todos os tempos vindouros. O fato é que esse feito enchia o mestre de orgulho. Ser do Comitê de Ética e Pesquisa da UFU, em sua velhice, também era remoçar seus dias.

Quanto a mim, nos conhecemos por ocasião de seu livro “Questões de Ética e de Direito na Universidade” (Edufu, 2006), que marcou nosso primeiro trabalho editorial juntos. Quem girou “a chave do tamanho” foi Cleire Cardoso, uma amiga comum, que só foi capaz de ampliar minha admiração e respeito por ele. Esses dois são daqueles que funcionam como linha, alinhavando amizades, parcerias, humanismo... ensinando-nos a ser adequados.

Na adequação de Altafin, nossa segunda parceria: “O Cristianismo e a Constituição” (Del Rey, 2007). Por último, eu quis, na minha singeleza, homenageá-lo, por meio de “Escritural de contornos biográficos: Juarez Altafin” (Assis, 2011). Experiência marcante, entre roseiras. Também, ao lado das pianistas Ruth de Souza e Maria Eustáquia, e vários poetas, nós o ovacionamos com as 10 valsas de Brahms e 10 poemas, na Casa da Cultura. Incrível euforia, daquele poeta de poucas poesias escritas, porém de uma vida inteira pautada na palavra e na poética. Aquele senhor, em sua gentileza e sabedoria, ensinou-nos a habilidade de implantar esperança.

O “Jurê da Dona Aida” – ex-aluno de Manuel Bandeira, ex-aluno de Pedro Calmon –, que versificou “a dura vida de um vaqueiro”, e nos encantou com seus relatos... poeta que nos encheu de saberes, nos saraus, enquanto recitava: “Florzinha Roxa / no meio do pasto / ganha do vento / um beijo casto // Toda fremente / toda pudica / um outro beijo / esperando fica”, de tanto nos encantar, encantou-se. O poeta se fez verso, e foi rimar no céu. Seu invejável legado acadêmico e cultural, ficou com sua poética, para virar saudade. De 24/01/1922 a 30/03/2021, o filho de Uberlândia, o amigo, o escritor, o poeta, o reitor, o jurista, o desembargador federal, o professor, o homem adequado lutou bravamente, e apesar dos esforços do Santa Genoveva, ele foi combalido pela Covid-19. Virou estrela, e teve seu corpo repousado em Estrela do Sul (MG).

Um dia, essa dor será só saudade. Como ele mesmo disse, ao Jornal da Justiça: "...na vida, após um crepúsculo, deve haver sempre o nascer de um novo sol.” Ao som de "Danúbio azul", Juarez Altafin descrevia o campo. E, por certo, na beleza de Tango, de Albeniz, para cuja canção Altafin criou versos, o brilho poeta resplandecerá em cada flor, em cada ramo, nas claves de Sol, nos raios de Sol... O poeta se fez poesia.




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