25/03/2021 às 17h10min - Atualizada em 25/03/2021 às 17h10min

Mentes sadias

IVONE ASSIS
Outro dia, na obra “A arte de ler” (1954), de Mortimer J. Adler & Charles Van Doren, à página 184, deparei-me com um depoimento do autor sobre política, liberalismo e educação liberal, que dizia: “Por falso liberalismo entendo aquele que confunde autoridade com tirania e disciplina com arregimentação. Aparece quando os homens consideram as coisas como uma questão de opinião. É uma doutrina suicida. Reduz-se a ideia de que só na força está o direito. Quem procura se libertar da razão, em vez de se libertar através dela, submete-se ao outro único árbitro dos conflitos humanos – a força, que Chamberlain chamou de ‘árbitro terrível das guerras’. [...] Se a democracia é uma sociedade de homens livres, deve manter e intensificar a educação liberal ou morrer. Os cidadãos democráticos precisam ser capazes de pensar por si [...]. Mas antes precisam ser capazes de pensar e de ter o que pensar. De se comunicar com clareza e receber, criticamente, todas as espécies de comunicação. E, para esse fim, os únicos meios que servem são a habilidade de ler e de ler os grandes livros”.

Achei esse trecho tão propício para a vida contemporânea, sobretudo neste momento de crise. A sociedade vive uma crise existencial, em uma bolha de ansiedade que não se rompe; esquece-se de que a vida, aqui, é tão curtinha, passa tão ligeiro. É preciso agarrar as oportunidades e viver fluidamente. Devemos apresentar soluções, em vez de apontar os dedos. Devemos saber cobrar e oferecer melhorias. Quando agimos com responsabilidade, amor e dedicação, evitamos implantar a decepção no outro, consequentemente, não provocar decepções em nós. Devemos nos esforçar em sermos melhores, porque assim melhoramos o mundo. Quando buscamos a culpa no outro, somos tão culpados quanto, ou até mais que. A gratidão é o bálsamo que perfuma as relações. A boa leitura é libertadora, assim como a leitura ruim é muito tóxica. Não estou a falar da fluência ou reclusa verbal, mas, sim, da escolha de narrativas sãs e sanas.

“Corrompeste, traiçoeiramente. a juventude 'do reino, fundando uma escola primária; e, enquanto nossos avós não tinham livros, mas somente a tábua e o estilete, foste a causa do nascer da imprensa e abriste uma fábrica de papel – desprezando o rei, sua coroa e dignidade.” (Henrique VI, de Shakespeare, in: Adler & Doren).

Ora, ora é da pequena semente que surge a Sequoia gigante. Já dizia Albert Einstein, “A mente que se abre ao conhecimento, jamais retoma ao tamanho original”. É por meio do conhecimento que a homem alcança a liberdade. É por meio dele que a pobreza e a fome são banidas dos lares, dando lugar às conquistas e à mesa farta. O conhecimento ensina o homem a não perder tempo com o importante, quando o essencial lhe chama. Por exemplo, um livro luxuoso é importante, mas o conteúdo de qualidade é essencial; a força é muito importante, mas a fé é essencial; conhecer pessoas é importante, mas ter amizades é essencial; uma casa boa é importante, mas uma família feliz é essencial... E assim segue a lista disto ou daquilo. Entre o fundamental e o essencial, falo, sem sombra de dúvida, viver bem é essencial.

É importante que nos questionemos: Por que estou fazendo isso ou aquilo? E é essencial que saibamos que somos responsáveis por aqueles que cativamos.

Investir em boa literatura é investir em qualidade de vida. Os livros nos ensinam a criar estratégias. Os livros nos apontam caminhos. Os livros nos ensinam a refletir. Os livros mexem com nossas emoções. Os livros são uma farmácia para a vida, e como farmácia, é essencial que se consuma a boa literatura, porque a ruim é tóxica. Não estou a falar da boa literatura sob o crivo acadêmico, mas, sim, sob a percepção humana, escavando literaturas que são fontes de crescimento e não de estupidez.

A boa leitura alarga a possibilidade de se produzir mentes sadias.


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