18/03/2021 às 11h00min - Atualizada em 18/03/2021 às 11h00min

Descompasso da solidão

IVONE ASSIS
Nos últimos dias, venho acompanhando a disputa política mundial, em busca de que um país alcance o podium que o craveje de honrarias por ter cumprido com sua obrigação: gestar as riquezas de uma nação e protegê-la. Mas, tratando-se de obrigação, por que esperar aplausos? O Brasil, com cerca de 212 milhões de habitantes, teima em escrever um soneto, quando lhe compete a escrita de um romance em 27 volumes. Esquece-se de que a escrita pede a união entre verbos, sujeitos, adjetivos, substantivos... acompanhados de todas as pontuações e acentuações possíveis, aumentando a intertextualidade e diminuindo a verborragia. Israel, por sua vez, optou por escrever um romance, quando poderia escrever apenas um conto. Com cerca de 8 milhões de habitantes, Israel corre contra o tempo para bater a mão na tabuleta e abrir-se para o mundo, mas estando o mundo doente, que sentido fará isso? Quem irá investir seu tempo a ler uma novela, quando a vida só lhe permite ler bulas e receitas médicas? Já a Cisjordânia, um enclave de três milhões de pessoas, que divisa com Jerusalém, capital de Israel, não tem conseguido escrever nem o haicai que lhe compete. A Cisjordânia vem enterrando seus mortos, por falta de hospitais. Desse modo, por falta de opção, grafita sinais em espaços possíveis, em vez de registrar poetrix e haicais em livros. A população destes dois lugares, em comparação ao Brasil, é, mais ou menos, como se colocássemos a população do DF (Cisjordânia), ao lado da população do Pará (Israel). Os países se esquecem de que entre Eu e Eles existem tu, ele, ela, nós, vós.

Ninguém, nenhuma nação, está obrigada à outra. Neste mundo de contrastes, é fácil confundir o isolamento, trocando solitude por pessoa solitária, em que o primeiro opta por estar só, já o segundo não tem escolha. Paul Valéry escreveu que "Há momentos infelizes, em que a solidão e o silêncio se tornam meios de liberdade", e Josh Billings esclareceu: "Solidão é um lugar bom de visitar uma vez ou outra, mas ruim de adotar como morada".

O escritor Rodrigo Locura, em sua obra poética “Letras simples, corações complexos”, à página 65 escreve: “Quando me sinto acuado, em minha solidão, leio Poemas, / mergulho na Filosofia / Eles ensinam como atravessar desertos e chegar em jardins de flores”. Aqui eu poderia mencionar a filosofia de Nietzsche com a utilização da arte como processo de repetição do originário, mas prefiro utilizar o próprio Locura, quando este questiona: “E se a arte fosse não a síntese, mas uma nova cor no mundo, / em quais significados se apoiaria a própria vida?” (p. 28). Porque, de fato, “Poesia não é palavra vazia e encharcada de memórias, corpo e sensibilidades, escapa aos exageros dos racionalismos, subverte as relações de poder-saber, é uma ameaça afetiva, é descontínua, é devir. E por estar inacabada, é revolucionária” (LOCURA, p. 28).

Quando vejo a economia se despencar, o lockdown, as fúrias da esquerda e da direita, pessoas espumando o canto da boca para defender seus ideais e enterrar seus mortos, sob o significado da palavra inexplicável, inexplicável. É. A mesma palavra que acusa, é a que acalenta. Acusação e absolvição se entrelaçam nas estrofes do poema. Poema?! Algoz das mentes ocupadas demais, sem tempo para ouvir a própria consciência. Uma esmola foi dada. O pedinte a consumiu. Outra esmola virá. O pedinte está fraco demais para contestar. Aceita. Pede mais. O lobo que devorou as primeiras presas, teve sua barriga esvaziada, e agora se passa por cordeiro, em pasto de apascentamento. Quando revigorado, novo banquete. A peste consome até o próprio verme. Um dia, o rio se seca e todos os peixes morrem. O pescador, sabendo apenas pescar, morre de fome, em meio ao milharal, porque não sabia que isso também era comida. Em meio aos meus devaneios, vou variando entre rimas, no descompasso da solidão.



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