26/01/2021 às 09h00min - Atualizada em 26/01/2021 às 09h00min

Uma História sobre a História’

POR LUCIANO FERREIRA
Luciano Ferreira
No início dos anos 2000, publiquei uma tira chamada “Uma História sobre a História’’, e tal como qualquer tira de jornal, seus elementos gráficos são comuns e reconhecíveis. Mas, o motivo de abordar essa tira em específico vem pelo fato dessa tira ter sido recebida com um grande (e justo) espanto na época que foi lançada, pois assim como outros trabalhos, eu procurei criar um tipo de narrativa que fosse além daquela associada à quadrinhos e tiras de jornal.

A esquete é bem simples: o 1° quadro mostra um sujeito fugindo de um tornado/tempestade, o 2° o mesmo personagem assustado, regando uma planta no 3° e no 4°, o personagem semeando o chão com um ‘saco com ‘sementes de vento’.

Todos esses elementos fazem alusão ao ditado popular “Quem planta vento, colhe tempestade’’, embora nesse caso a ordem a narrativa esteja de trás para frente. 

Mesmo que os elementos gráficos fossem convencionais, alguns leitores do jornal onde ela foi publicada, ficaram inquietos, provavelmente com dúvidas sobre a qualidade da construção narrativa ou até mesmo incomodados em seus valores conservadores em termos de Arte.

Cheguei a levar um puxão de orelha, onde um artista da cidade me sugeriu emprestar algumas revistas de quadrinhos, para que eu estudasse e aprendesse como se faz quadrinhos. Considerei a sugestão como uma forma sincera de ajuda, mas nunca deixei de sentir um estranhamento quando artistas se posicionavam de forma conservadora a respeito de quadrinhos, especialmente no sentido de que é uma arte superficial.

Vale lembrar que isso foi há quase 2 décadas atrás e que hoje temos uma diversidade de estilos, narrativas e outros elementos que seriam considerados inapropriados para os quadrinhos triangulinos dos anos 2000. Mas, ainda me intrigava que quem estudou movimentos de vanguarda e suas rupturas, reagissem de forma conservadora a uma mera e efêmera tira de jornal.

Com tudo isso, convido o leitor a refletir sobre o caminho que as Charges, Tiras e as demais manifestações das Histórias em Quadrinhos passaram até que pudéssemos ter um cenário promissor em termos de vendagens e qualidade. Superar o estigma de que as Histórias em Quadrinhos eram uma produção artística exclusiva para crianças, levou bastante tempo e ainda precisa avançar mais, visto que alguns leitores ainda estão presos nesse conceito.

De modo geral, o aproveitamento quadrinístico em outros campos, como infográficos e memes, trouxe uma mudança no entendimento de Quadrinhos, indo além da auto sustentabilidade como negócio, mas também ampliando significativamente as experiências estéticas para os leitores de todas as idades.


Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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