31/12/2020 às 08h00min - Atualizada em 31/12/2020 às 08h00min

Mudanças

IVONE ASSIS

Chegamos no final de mais uma etapa. 2020 foi um ano de mudanças, de luto, de luta, de choro, mas também de esperança. A população do planeta foi duramente afetada. O 2020 foi para a história como um buraco que se abriu dentro de cada um dos que ficaram. Sabemos que a vida é um ciclo. Todos vêm. Todos se vão. Mas ninguém está pronto para as perdas em massa. Ninguém está pronto para o assombro. Em momentos difíceis, sempre ofertamos o abraço. Desta vez, o abraço também foi tolhido. Cada qual precisou chorar sua dor isoladamente, sob o frio da solidão. As mudanças foram impostas a todos. Veio sem pedir licença.

Em 2019, o professor Antonio Bosco de Lima, da Faced/UFU, organizou a obra Mudanças, com os alunos EJA, da Escola Estadual Professora Juvenília Ferreira dos Santos, de Uberlândia, cujos poemas foram produzidos ainda em um tempo que não se imaginava o bloqueio do abraço. Dos muitos escritos, vou citar “Mudança”, do poeta João Victor Soares, do 1º EJA A, que se encontra à página 13. Soares escreve “Era da mudança. / Hora de mudança. / Seja diferente, não se prenda à rotina. / Explore coisas novas, / Lugares que jamais serão esquecidos, / Vá a parques de diversões, / Brinque no brinquedo mais temido. // Pense! Viva. / Não tenha medo. / Afinal, não sabemos o amanhã. / Viva experiências novas e / Liberte-se da rotina. // Vivemos tempos de mudança / E está na hora de mudarmos também. / A vida é vai e vem”.

Um belo poema, pautado em um sonho de esperança, mas veio pousar no terreno sombrio do afastamento. O poeta sugere que não tenhamos medo do amanhã, pois a vida é um ciclo, e pede contínuas mudanças. Sabemos que o 2020 adesivou a porta do mundo com um blackout, mas houve quem conseguiu utilizar o adesivo micro-perfurado, permitindo a entrada de um pouquinho de luz. Houve, ainda, aqueles que adesivaram com adesivo liso, de modo a enxergar através do bloqueador de luz. Fato é que o ano foi difícil para todos, apesar de algumas ervas daninhas não se darem conta de que estão matando a safra, porém, o que vale lembrar é que, não importa quão difícil tenha sido, no amanhã, o sol iluminará tudo outra vez, e, com mais ou com menos luz, poderemos recomeçar. Enquanto houver vidas na Terra, haverá mudanças e esperança.

Como li em um poema atribuído a Affonso Romano de Sant’Anna (“atribuído”, porque não encontrei a obra e a Internet é labirinto das escritas): “Vai, ano velho, vai de vez / vai com tuas dívidas / e dúvidas, vai, dobra a ex-quina da sorte, e no trinta e um / à meia-noite, esgota o copo / e a culpa do que nem me lembro / e me cravou entre janeiro e dezembro. // Vai, leva tudo: destroços, / ossos, fotos de presidentes, / beijos de atrizes, enchentes, / secas, suspiros, jornais. / Vade retrum, pra trás, / leva pra escuridão / quem me assaltou o carro, / a casa e o coração. // Não quero te ver mais, / só daqui a anos, nos anais, / nas fotos do nunca-mais. // Vem Ano Novo, vem veloz / vem em quadrigas, aladas, antigas / ou jatos de luz, moderna, vem, / paira, desce, habita em nós [...] // Adeus, tristeza: a vida / é uma caixa chinesa / de onde brota a manhã. // Agora é recomeçar [...]”.

O poeta, consciente dos destroços, não perde a esperança, pelo contrário, convida a não perder a expectativa, convida ao recomeço, porque a vida é este constante nascer e pôr do sol. Sabemos que os obstáculos existem, sobretudo para aqueles que perderam o direito de abraçar, ou de serem abraçados, mas a vida é este anoitecer e amanhecer. Somos feitos de mudanças.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 

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