10/12/2020 às 08h00min - Atualizada em 10/12/2020 às 08h00min

Viver o essencial

IVONE ASSIS
Segundo o “Fogo Cruzado”, de 05/12/2020, até o dia 04, do presente mês, 22 crianças – de até doze anos – foram baleadas no Rio de Janeiro. Destas, 12 morreram, como foi o caso das duas primas Rebecca Beatriz Rodrigues Santos, de 7 anos, e Emilly Victoria da Silva Moreira Santos, de 4, baleadas e mortas, na porta de casa, em Duque de Caxias, enquanto brincavam.

Embora tenhamos uma das máquinas públicas mais caras do mundo, ao longo dos anos, mudam-se as gestões, mas nenhum governo, em nenhuma das esferas, “consegue” mudar esse quadro de violência. Investir em cadeias e ignorar a Educação de qualidade é o mesmo que investir na bestialidade. Sobra reação e falta ação. Sobram julgamentos e falta amor. Faz-se urgente o repensar a sociedade e a educação. Como disse o poeta Ademar Inácio da Silva (2017, p. 27): “Areia sangrenta / de cabeças decepadas, / báratro, / fogo a lamber as invernadas, / baderna, / ódio nos olhos do camarada”.

Em 2013, o professor e escritor Antonio Bosco de Lima, em seu conto: “A caminho de casa” (apud “A poética na educação”, p. 25-26), escreve:

“Josenildo Barbosa estava cansado. Era um lutador, mas estava cansado. Cansado da escola. Cursava a sexta série do noturno. Cansado do trabalho, onde, naquele dia, correram boatos de que haveria facão. Além de cansado, Josenildo estava preocupado. Teria cinco aulas. [...] Entre um exercício e outro, dormiu. [...] Agora, devia estar sonhando com os móveis da fábrica onde trabalhava. Já não havia mais preocupação. Alguma coisa que não se sabe o que é, como vem, como se instala, o havia conquistado. O trabalho já não era instrumento de tortura. Era conquista. [...] Entre uma lição e outra. Entre um sonho e outro. O professor olhou o relógio. Um colega deu a ideia de deixarem Josenildo dormindo. O professor foi o primeiro a sair, apressado. As serventes corriam fechando as portas das salas. Abrindo a escola para a paz. A escola estava mais escura. [...] Josenildo acordou de repente. [...] cruzou os braços e deitando a cabeça pegou no sono, novamente. Tomou consciência de si. Levantou-se de supetão. Correu para a porta. Estava trancada. Olhou para a janela. Nisso, tendo forçado a porta, fez barulho. Vizinho ouviu. Roubo na escola. Bandidos na escola. Telefone. Polícia. Escuro na sala. Tropeço. Cadeira caindo. Telefone. Barulho. Escuro na sala. Rápido. Polícia. Janela quebrada. Pé para fora. Sirene ligada. Dois pés para fora. Sirene mais próxima. Coração disparado. Vizinhos acordando. Luzes acesas. Pulo para fora da classe. Corrida. Vizinhos nas janelas. Disparo. Moleque correndo. Para ou atiro – Tiro. Corrida. Tiro pro alto. Pro chão. Tiro nas costas. Tiro nas pernas. Bandido no chão. Vizinhos aplaudem. Multidão se aproxima. Quem é? Quem era?

Como escreveu Mario Quintana (2005, p. 100. XVII): “Na vez primeira em que me assassinaram / Perdi um jeito de sorrir que eu tinha... / Depois, de cada vez que me mataram, / Foram levando qualquer coisa minha...”.

A todo instante nossos noticiários jorram sangue. Inexiste noticiários que jorram saberes. Não há como culpar o noticiário por apresentar a realidade, haja vista que, praticamente, as notícias de superação inexistem, quando comparadas ao fluxo da página policial. Pior ainda, a notícia que dá público é notícia trágica. É comum ver as pessoas se apinharem em frente ao noticiário, televisivo ou não, para embasbacarem-se com o grotesco. Raramente vê-se tal entusiasmo para notícias sentenciosas.

Ainda, segundo Quintana (2005, p. 214), em seu poema XXIV: “Como um cego, grita a gente: ‘Felicidade, onde estás?’ / Ou vai-nos andando à frente... / Ou ficou lá para trás...”

É como se houvesse a necessidade de se viver em contínuo desespero e o tempo fosse designado apenas ao espanto. O dinheiro tem governado a vida, a vida tem alimentado a barbárie, e a barbárie tem consumido o dinheiro e a vida.
Para que o fundamental tenha sentido, carecemos viver o essencial.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 
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