03/12/2020 às 08h00min - Atualizada em 03/12/2020 às 08h00min

Uai, sô

IVONE ASSIS
Há 30 anos, o estado brasileiro com maior número de municípios iniciou minha alfabetização em mineirês. Foi perguntando e respondendo na linguagem do Uai, no idioma do trem, por meio dos sinais de fumaça, que apontavam para a terra do Sô e da Sá, que aprendi o que é “Bão demais da conta”. Hoje, da janela desse trem, contemplo os festejos dos 300 anos desse recanto de poetas. Este lugar que viu nascer Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Carolina de Jesus, Adélia Prado, Abgar Renault e tantos outros, em 2 de dezembro de 1720, desvinculou-se de São Paulo, para dar vida à Capitania de Minas, a nossa Minas Gerais. Ontem, o “trem” chegou à estação 300 anos.
 
Como escreveu Abgar Renault, em “Tempo e lugar”: “Não mais importa onde, / só o que importa é quando: / vai-se o espaço alongando, / mas o tempo se esconde. // Suba a pedido ou mando, / na mais copiosa fronde / nem um fruto responde / à hora que está murchando. // Sombra no chão, a vida, / adiada e arrependida, / neste chão entrará. // No quadrante absoluto / (viagem, asa, minuto) / mais nada é, nem será”. E nesse quando do poeta é que Minas exalta o passado, vive o presente e projeta o futuro, sem medo do apito da Maria Fumaça.
 
Esses 300 anos de história mineira têm muito a contar sobre os filhos natos ou naturalizados, deste torrão mineiro. Que o digam a memória dos 12 profetas representados na obra de Aleijadinho, dentre eles Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Minas, que traz em sua bandeira “Liberdade, ainda que tardia” – do velho latim “libertas quæ sera tamen” –, sempre se destacou na economia, na sociedade, na política, na poética e outros. Já foi a região mais populosa do país. Destaca-se na metalúrgica, sobretudo na siderurgia. Minas é terra dos quilombolas. É terra de pretos e brancos, de homens e mulheres... de gente de todas as raças, e religiões, e profissões, e literatura. Foi com a “Guerra dos Emboabas” que Minas entrou para a história, e agora, 300 anos depois, é com a guerra contra a Covid-19 que Minas tenta sobreviver à história.
 
Alfabetizada em mineiro fluente, encontro-me no maior trem do mundo, e é dele que menciono um poema de mesmo nome, de seu filho Itabirano, Carlos Drummond de Andrade: “O maior trem do mundo / Leva minha terra / Para a Alemanha / Leva minha terra / Para o Canadá / Leva minha terra / Para o Japão // O maior trem do mundo / Puxado por cinco locomotivas a óleo diesel / Engatadas geminadas desembestadas / Leva meu tempo, minha infância, / minha vida / Triturada em 163 vagões de minério e destruição. // O maior trem do mundo / Transporta a coisa mínima do mundo / Meu coração itabirano // Lá vai o maior trem do mundo / Vai serpenteando, vai sumindo / E um dia, eu sei, não voltará / Pois nem terra, nem coração existem mais”.
 
Mas o mesmo trem que levou riquezas trouxe progresso. Esse trem continua a baldear sonhos e esperança. Esse trem leva, em turnê, a arte de muitos brasileiros, dentre eles, a guitarrista mineira Zélia Fonseca. E como diz o poema dela: “Mesmo vindo os dois de outras gangues / Você do mar e eu do mangue / Você de ouro e eu de sangue / Você, senta e sonha / Eu, corro e pulo / Me espremo e suo / No mesmo bonde / No mesmo bonde”. E, como Zélia Fonseca, eu também “Venho de outra fronteira”.
 
É nesse ir e vir, de uma “diáspora” interminável, que a diversidade se junta para formar a história. Não somos um estado de uma cultura só. O trem leva e o trem traz, feito passarinho que voa longe, mas sempre retorna para casa. Somos árvores, enraizadas, mas nossas florada voa longe. Nossos frutos atravessam oceanos, despertando a paixão estrangeira. Minas Gerais é terra de outeiros, morros, montanhas e serras... É terra de vagões e trilhos, sempre enviando um sinal de fumaça àqueles que buscam um norte. Minas, três séculos de história, de um simples bit tornou-se um yottabyte. Independente da grandeza que se lhe atribua, Minas será sempre a terra do queijo, do riso largo, do Uai, sô!


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