12/11/2020 às 08h00min - Atualizada em 12/11/2020 às 08h00min

Relógio

IVONE ASSIS
Diariamente, agiganta-se o consumo de bens perecíveis. Um enorme contingente tem priorizado todos os seus esforços no “ter a qualquer custo”. Estamos perplexos, ante a corrida pelo ouro. Muitas pessoas, sobretudo jovens e ocupantes de altos cargos, têm desperdiçado sua dignidade e sua seguridade, em troca de uma vida vã, líquida, de furtos e roubos, de corrupção. Surrupiam banalidades enquanto se aprisionam nos relógios. Esquecem que viver, diferentemente de acumular, é doar-se.

No livro de Lucas 12. 24-27, das Escrituras Sagradas, está escrito: “Considerai os corvos, que nem semeiam, nem segam, nem têm despensa, nem celeiro, e Deus os alimenta; quanto mais valeis vós do que as aves? / Considerai os lírios, como eles crescem; não trabalham, nem fiam; e digo-vos que nem ainda Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles”. A parábola nos convida a investirmos o tempo em conquistas maiores. Pois, amar é maior que odiar. Ser feliz é maior que aborrecer-se na fadiga do acúmulo. Viver é voar e não se aprisionar em caixas de vidro. Isso não se confunde com ociosidade, pelo contrário, isso é viver intensamente, num contínuo movimentar-se em prol da riqueza maior, que é a liberdade e o amor. O trabalho e as conquistas são necessários. A prosperidade é um reconhecimento ao esforço de cada um. Isso é muito gratificante, mas nosso coração não deve enjaular-se. O coração é alado. Viver é amar. Quem ama voa nos sonhos. Não há riqueza, nem conquista, nem nada, que faça o dia durar 25 horas. É impossível guardar um pouco do sol do dia, para utilizá-lo à noite. Por isso, devemos viver cada coisa a seu tempo. O ciclo da vida vai se cumprir, naturalmente. O que vale é viver bem, com alegria e decoro, porque a vida passa, mas as lembranças ficam. Então, que façamos jus para um registro histórico honrado.

A vida é poesia, é preciso saber apreciá-la, analisá-la e recitá-la. Sem poesia a vida é sombria. João Cabral de Melo Neto, poeta da “Geração de 45”, inovou a escrita por meio da experimentação da linguagem, criando um legado que o eternizará na memória da posteridade. Em seu poema “Catar feijão” (1965), escreve: “1. Catar feijão se limita com escrever: / Jogam-se os grãos na água do alguidar / E as palavras na folha de papel; / e depois, joga-se fora o que boiar. / Certo, toda palavra boiará no papel, / água congelada, por chumbo seu verbo; / pois catar esse feijão, soprar nele, / e jogar fora o leve e oco, palha e eco. // 2. Ora, nesse catar feijão entra um risco, / o de que, entre os grãos pesados, entre / um grão imastigável, de quebrar dente. / Certo não, quando ao catar palavras: / a pedra dá à frase seu grão mais vivo: / obstrui a leitura fluviante, flutual, / açula a atenção, isca-a com risco.

Nesta vida de “catar feijão”, guardado em caixas de vidro, João Cabral de Melo Neto, o “arquiteto das palavras”, vai nos ensinando a esmerilar o verbo, a exercer a paciência e o zelo, e priorizar a qualidade. Esse poeta desfia a vida em verbos e versos, em sujeitos e substantivos, adjetivando a ação do homem, que arquiteta a palavra, mas, muitas vezes, se esquece de pontuar-se.

Dentre os vários poemas deste “poeta-engenheiro”, vou me limitar a um trechinho de “O relógio” (1945), que diz: “Ao redor da vida do homem há certas caixas de vidro, dentro das quais, como em jaula, se ouve palpitar um bicho. [...] mais perto estão das gaiolas, ao menos, pelo tamanho e quebradiço da forma. Umas vezes, tais gaiolas vão penduradas nos muros; outras vezes, mais privadas, vão num bolso, num dos pulsos”.

Aprendendo com o poeta, observamos que o bicho-tempo ruge, enjaulado, preso nos relógios, que, presos nos muros, nos bolsos, nos pulsos, nos celulares... enjaulam o próprio homem, na caixa de vidro, a qual, somente se quebrada, permitirá que os pássaros voem e cantem, não para existir por existir, ou cantar um canto rouco, mas para ganhar a imensidão, que aguarda o homem, aprisionado dentro de si, em seu próprio relógio.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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