10/11/2020 às 09h00min - Atualizada em 10/11/2020 às 09h00min

Máscara do futuro

ENZO BANZO

Nos tempos do pavor da gripe suína, nos idos do já longínquo 2009, o uso de máscaras na vida cotidiana era bem menos comum do que agora. Naquela época, sequer tive uma máscara para chamar de minha. Lembro que eu viajava bastante fazendo shows (as loucas aventuras dos Porcas Borboletas), e me causava sempre uma sensação esquisita quando entrava uma pessoa mascarada no avião. Não sabia se o uso era porque a pessoa estava contaminada, ou se queria se proteger, mas o fato é que a máscara convertia a doença (uma notícia de jornal) em realidade palpável, em ameaça possível. A gente que nasce em cidade pequena acha que essas coisas nunca vão se lembrar do nosso sertão. Longe de casa, o avião era o mundo.

Em março desse imprevisível 2020, fiz uma viagem a São Paulo e, na volta, havia uma única pessoa de máscara no avião. Já se falava na Covid, mas a ficha estava longe de cair, parecia algo distante, da Itália ou da China, apesar do alerta dos noticiários. Minha sensação foi parecida com aquela de dez anos antes, incômodo medo como se diante da visão do vírus invisível. Que já vinha, que já vinha.

Hoje tudo se inverteu: a tensão se dá não mais pela presença da máscara, mas diante dos tantos sorrisos desmascarados que insistem em lotar o bar da esquina. O vírus em toda parte, o mundo parece que chegou no sertão, não há fuga, não há saídas. Basta abrir a porta: se ouço passos de alguém subindo as escadas do prédio enquanto desço, torço para que esteja de máscara. O "bom dia" é um grunhido para dentro. De desencadeadora de tensões, a escondedora de rostos passou a tranquilizadora; pelo menos para quem, como eu, não se aventura na sinuca ali do bar, onde os clientes parecem não se importar com a possibilidade de serem a próxima bola a cair na caçapa. Ou de suicidar outras bolas.

Até as imagens antigas (mas nem tanto) do mundo pré-pandêmico causam-me estranhamento. Eu era feliz e não sabia? No recente documentário "Narciso em Férias", em que narra suas experiências quando preso pela ditadura militar em 1968, Caetano Veloso conta que, após alguns dias na solitária, toda sua vida anterior parecia-lhe uma grande fantasia. Era como se aquilo nunca houvesse existido, tamanho o contraste com a situação em que se encontrava. O absurdo do presente fazia com que não mais acreditasse no passado.

Tentando reviver o tempo de antes das mortes diárias, da ameaça iminente, do cheiro de álcool em gel, da vida dentro de telas, dos medos e dos que negam o horror, sinto algo análogo ao descrito por Caetano, chegando a duvidar de um passado que um dia chamamos de vida normal. Havia o mundo antes do fim? 

Bem, talvez aquele normal não fosse assim tão normal, dada nossa apatia anestesiada diante do choque de cada dia, cotidiano do sem fim das desigualdades degradantes. Pense no Haiti: é aqui. O tal do novo normal, além de não ser normal, não é assim tão novo, se puxado na raiz. O Haiti não era aqui, já era aqui, já era.

Vejo TV: pessoas de máscaras dando entrevistas, andando nas ruas (isso quando tenho tempo entre uma e outra reunião ou aula virtual). Como veremos esses vídeos no futuro, quando isso tudo passar, se passar? Talvez respiremos aliviados, respiremos sem máscara, pensando que tudo já passou, como quem cala uma dor escondida lá no fundo, sorrindo bobamente. No bobo sorriso, a máscara do futuro.

Após a prisão, Caetano conta o que lhe disse o artista plástico Rogério Duarte, também aprisionado pela ditadura: "quando a gente é preso, é preso para sempre".

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 

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