15/10/2020 às 08h00min - Atualizada em 15/10/2020 às 08h00min

Para sempre

IVONE ASSIS
Costumamos dizer: “Nada é para sempre”, mas pensando direito, já não sei se a frase faz tanto sentido. Há máculas e sequelas que são para toda a vida, isto é para sempre. Quem não leu ou assistiu nesta semana sobre o desabafo do jornalista Hopewell Chinono, do Zimbábue, que ficou preso por um mês, por denunciar um caso de corrupção? E o intrigante caso do André do Rap, solto pelo STF? São incógnitas que, possivelmente, ficarão na história para sempre. Mas prefiro falar das coisas boas, que se perpetuam. Histórias de superação, que apesar do sofrimento envolvido, tendem a compor o “para sempre”.

Charles Chaplin é autor da incrível frase: “Cada segundo é tempo para mudar tudo para sempre”. Ouso parafraseá-lo: “Cada segundo pode mudar tudo para sempre”. Na primeira, o clássico apresenta um mar de esperança; na segunda, apresento um retrato da realidade, apesar de muito próxima a linguagem, são duas diferentes leituras.

É nesta proximidade de significações que encontrei o filme “Um momento pode mudar tudo”, versão brasileira do “You’re not you”, um longa americano de 2015, do gênero drama, em que a pianista Kate é acometida pela ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica) e a doença se encarregará de rasgar as cortinas da sociedade e tirar a venda dos olhos dos envolvidos. Esse torvelinho irá banir o véu que encobre a falsidade das “amigas” que aspiravam o testamento, irá revelar a traição e a fraqueza do marido “apaixonado”, mas, também, irá descobrir a humanidade, a grandeza e a competência que há na chistosa Bec, uma estudante que vive a se esconder em sua insegurança, enterrando seus talentos e aflorando a falta de autoestima, cujo processo é envolvido em um pacote que a sociedade chama de rebeldia, mas prefiro chamar de medo ou falta de autoconfiança.

O resultado de tudo pode ser chamado de emoção, mediante a crueza da vida de uma paciente com ELA, uma doença degenerativa autoimune, que revela como, geralmente, acontece com as pessoas acometidas por enfermidade raras – ou outras situações bizarras – que tendem a levar os familiares a crerem que podem coisificar, ou desumanizar, as pessoas. O drama aponta para a importância de se ouvir o paciente e atender sua vontade quanto às decisões para sua vida, e não a vontade dos que pensam ser donos da história do outro. Situações assim são muito corriqueiras em idosos e pacientes com qualquer enfermidade que afete a coordenação motora, sobretudo porque há, infelizmente, uma tendência natural a crer que a falta de movimentação leva à demência. É preciso entender que a lucidez das pessoas não está vinculada à coordenação motora. O cérebro tem vida própria.
Filmes como “O Escafandro e a Borboleta”, “A teoria de tudo”, “Intocáveis” e similares, levam-nos a profundas reflexões sobre este questionamento de doenças degenerativas que mudam vidas para sempre. Como muito bem escreveu Piglia, vítima da ELA, “el trabajo con o doble, es, como siempre, un modo de conjurar la muerte” (PIGLIA, 2015, p.146) | (Trabalhar com ou dobrar, é, como sempre, um modo de evitar a morte).

O escritor argentino Ricardo Piglia, autor de tantas obras, dentre elas “Respiração artificial”, após ser diagnosticado com ELA, intensificou sua escrita a fim de não deixar obra póstuma. A escrita foi o seu refúgio, sua conselheira, seu ponto de consciência, sua respiração... Em suas entrevistas, Piglia sempre enfatizou a importância de continuar trabalhando, pois a escrita mantinha-o focado. Ele sabia que enquanto o corpo padecia a mente lutava, e havia muito a se dizer.

Já as obras “O cérebro que se transforma”, de Norman Doidge, e “O olhar da mente”, de Oliver Sacks, apresentam a temática com foco na ciência, na possibilidade de tratamento e obtenção de um pouco de qualidade de vida. E, ainda que se perguntem: “Será que vale a pena viver dessa maneira? Que tipo de vida essas pessoas podem ter?”, a resposta é SIM. Como disse Chaplin: “Cada segundo é tempo para mudar tudo para sempre.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 
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