09/09/2020 às 13h24min - Atualizada em 09/09/2020 às 13h24min

A independência do Brasil nos quadrinhos nacionais

ALINE ROMANI

Nesta semana, celebramos 198 anos de independência do Brasil e presenciamos a propagação de diversos símbolos nacionais. Neste momento de isolamento, na ausência do desfile cívico, restou apenas a lembrança dos heróis pátrios, do cheiro da pipoca feita na rua e a memória de momentos que não vivenciamos, senão através da literatura.

As histórias em quadrinhos nacionais muito contribuíram para a construção deste imaginário acerca da nacionalidade brasileira. Quem não guarda na memória aquele quadrinho que leu ainda na infância? A representação ilustrada dá vida à imaginação, a objetos e personagens de maneira palpável. As HQs têm grande potencial para construção de memória, sendo elas um produto reproduzido em massa, que contribui para a elaboração de uma ideia coletiva.

Sabemos que as HQs, no início do século XX, carregavam a pecha de arte menor, e ainda, eram consideradas uma leitura deletéria à juventude. Neste contexto, Adolfo Aizen, ativista do quadrinho nacional, fundador e dono da EBAL, investiu em quadrinizar fatos históricos nacionais e combater a ideia do quadrinho como arte menor e imoral. Este projeto tinha caráter paradidático, moralista e o objetivo de agradar grupos conservadores, como a igreja católica, e atrair investimentos estatais. Não era exatamente inventar História, mas impor como verdade o ponto de vista de um setor da sociedade.

A narrativa dos quadrinhos frequentemente é usada como instrumento político e ideológico. Na EBAL, ela é parte de um projeto de difusão de uma identidade nacional. No Brasil, a relação estreita de dependência das HQs e os jornais, cunhou um espaço único de colaboração entre jornalistas e cartunistas, estes muitas vezes se apropriaram da linguagem jornalística, distanciando-se da ficção e aproximando-se de fatos.

Os assuntos de cunho patriótico eram o foco das produções, contemplavam uma visão linear, positivista, que não propõe um diálogo com a realidade da maioria dos brasileiros. No entanto, atraia o leitor por meio de uma narrativa heroica. No geral, exalta-se a história dos vencedores, retrata as figuras políticas e omite os demais sujeitos, impondo uma disputa pela memória no país.

Em 1972, era relançada a “Independência do Brasil em quadrinhos” em comemoração ao dia 7 de setembro. Na capa, D. Pedro I está vestido com roupa militar verde e amarela. Simbólico em tempos de ditadura! Ao mesmo tempo que D. Pedro é exaltado, Portugal aparece como um exemplo de nação a ser seguida, amenizando os conflitos gerados pela colonização e apagando sujeitos da história que tornaram a independência inevitável. Era comum, nestas revistas da década de 70, eleger um protagonista histórico. Em outra publicação da EBAL, “A libertação dos escravos em quadrinhos”, a Princesa Isabel aparecia como a libertadora. Os personagens eram realistas, porém pouco expressivos. A intenção era dar seriedade a narrativa.

O problema da disputa de memória é que ela não afeta apenas a percepção do passado, mas atinge o que somos no presente. As HQs da EBAL contribuíram com um projeto político nacionalista. Omitiram os conflitos a fim de provar sua unidade por meio de uma História forjada nos mitos fundadores. Retrataram um país no qual apenas os homens brancos, héteros, de origem europeia, são capazes de atos heroicos em função da defesa da pátria. A estratégia com as HQs era conquistar os mais jovens, leitores afincos dos quadrinhos, e remontar o passado de acordo com os interesses de grupos abastados. E assim, naturalizar a manutenção de privilégios seculares.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 

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