04/08/2020 às 08h40min - Atualizada em 04/08/2020 às 08h40min

Presença no presente

ENZO BANZO
Quando começou a febre das transmissões ao vivo pela internet − as famosas "lives" −, confesso que não vi muito sentido naquilo tudo, talvez por conservadorismo de minha parte, talvez por ingenuamente acreditar que logo estaríamos de volta aos eventos como os conhecíamos. Pensava comigo: por que acompanhar uma apresentação ao vivo de um artista, com limitações técnicas decorrentes do distanciamento, se posso ver uma infinidade de vídeos anteriores, bem produzidos e disponíveis gratuitamente nas redes?

Aí é que eu me enganava. Quando assistimos a um vídeo gravado, de um show já acontecido, de um papo que nos interessa, há vários tipos de fruição, é prazeroso, muitas vezes ocorre uma descoberta transformadora, mas há uma sensação que este modelo jamais alcança: a da presença no presente. Por mais que estejamos curtindo o que quer que seja, quando contemplamos o registro de um evento de outros tempos, não chegamos, de fato, a participar daquilo: somos um olho de fora, não estamos ali, nem no tempo, nem no espaço. Dá pra falar, "eu vi", mas não pra dizer, "eu tava lá", "eu fui", "eu participei".

As lives surgem, dentre outras razões, para sanar esta carência de estarmos juntos, na mesma hora e lugar, constituindo-nos como parte de um acontecimento. Embora no modo virtual, ali estamos, ao mesmo tempo, no mesmo espaço-tela; encontramos conhecidos e desconhecidos entre os comentários, temos acesso ao que aquele artista está produzindo no instantâneo segundo que passa. Esse estar junto no mesmo agora é uma necessidade social, e as lives surgem, neste sentido, como solução muito mais apropriada que a desse vizinho aqui do Santa Mônica, que insiste em seu churrascão para os chegados, que não são poucos.

Minha resistência às lives começou a ser quebrada quando alguns dos meus artistas e pensadores prediletos começaram a fazê-las; foi impossível não aderir: aquele sabor do canto, do pensamento e do gesto que se constroem no instante, o gosto de estar ali presenciando o momento com as outras pessoas que surgem em seus acenos. Algum tempo depois de rendido à onda live, fui convidado para estar do outro lado da tela, em shows e debates virtuais transmitidos ao vivo e comentados pelo público. Em cada uma, senti a alegria do tempo-espaço compartilhado (embora sempre faltasse o corpo-abraço, olho no olho). Na última, semana passada, em um bate-papo-toca-som com Danislau, amigo e parceiro de Porcas Borboletas, a sensação foi a de ter feito um show de rock, energização de adrenalina, celebração, troca, encontro, vida: I'm alive, vivo, muito vivo, como já cantou Caetano Veloso.

Por falar no mano Caetano, o caso do compositor baiano é emblemático sobre esta nova dinâmica, a começar pela confusão entre privado e público, entre íntimo e social, marca de nosso tempo que propicia observarmos o cantor (cujo espaço a nós destinado era até então o do palco, dos programas de TV, das revistas e jornais) em sua casa, comendo paçoca de pijama. A insistência de Paula Lavigne, sua esposa e empresária, passou de intimidade de casal a meme de internet, quadro de imitação nos programas de humor, assunto de chats entre amigos e grupos, pauta geral. Intencionalmente ou não, a novela particular da esperada live de Caetano Veloso acabou por gerar enorme comoção e expectativa pelo evento que, enfim, virá.

É fato que a febre das lives demonstra a necessidade vital da arte em nossas vidas, em uma dinâmica individual e social de urgência da atualidade. Diante de tanto horror e medo, reforçados pela situação absurda em que nos metemos com a eleição de quem com a vida pouco se importa, a energização gerada e compartilhada em um mesmo tempo e no mesmo espaço virtual é força bruta e delicada para nos mantermos vivos: humanos e sãos, presentes no presente.  




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