28/07/2020 às 17h36min - Atualizada em 28/07/2020 às 17h36min

Quadrinhos, Ciência e Coronavírus

CHICO DE ASSIS
FOTO: JOAO PINHEIRO

Histórias em quadrinhos tratando de temas científicos não é propriamente uma novidade. Já nos anos 1950, a editora EBAL trouxe a coleção “Ciência em Quadrinhos”. Essa publicação, junto com outras de temas históricos e adaptações literárias, fez parte de um esforço da editora em responder ao feroz discurso contra essa linguagem que a acusava de empobrecer o raciocínio lógico, entre outros argumentos que ironicamente nada tinham de base cientifica. A verdade é que o tema ciência não é nem um pouco estranho ao universo dos quadrinhos, desde aventuras onde o Tio Patinhas e sobrinhos “viajam” dentro de uma folha mostrando a fotossíntese e demais processos bioquímicos dos vegetais até aventuras futuristas que estimulam a imaginação cientifica. Algumas vezes podem pecar por serem excessivamente didáticas e outras por tratar com descuido o discurso científico, o que não podemos é acusar as Hqs de ignorar o tema.

A preocupação com a divulgação cientifica entre jornalistas, sobretudo de departamentos de comunicação em universidades, tem crescido bastante, e junto com isso o uso de quadrinhos como ferramenta de difusão. Como exemplo, temos a HQ “Ciclos”, de autoria do biólogo Luciano Queiroz e do cartunista Marco Merlin, construída a partir de um artigo cientifico sobre insetos aquáticos, ou a bem-humorada série “Cientirinhas”, também de Merlin e grande sucesso na internet. “A história da ciência em Quadrinhos”, projeto da UFOP, ou “Os Cientistas”, tira produzida por jornalistas e pesquisadores, busca desmistificar o cotidiano de quem trabalha nessa área, publicada diariamente em jornal de Campinas até 2002 e posteriormente em coletânea.

FOTO: JOAO PINHEIRO

O advento da pandemia da Covid-19 parece nos mostrar que tão urgente quanto criar uma vacina ou descobrir um tratamento eficaz para a nova doença é conseguir informar e formar a população em geral para uma compreensão cientificamente pautada da realidade. A despeito da inaptidão, desinteresse e descaso de parte do governo vemos profissionais de saúde, das ciências e da educação e comunicação redobrar esforços nesse sentido, e as histórias em quadrinhos estão mais uma vez presentes. Nessa seara temos a “Combate ao Covid 19, todos pela saúde de todos”, de Alexandre Montandon e “Super poderes contra o Corona vírus”, do Social Comics, ambas com explicações sobre a doença e como se comportar para evitar o contágio.

Mas, lembremos que ciência não é só o que se faz no laboratório com reagentes químicos e microscópios. Temos as ciências sociais, a psicologia, antropologia e tantas outras áreas das ciências humanas. E algumas HQs tratando do aspecto social, econômico e político em relação à Covid-19 são realmente surpreendentes, seja pela reflexão que sugerem ou pela fato de terem sido feitas com tamanha agilidade em relação ao aparecimento do fenômeno de que tratam. São elas: “O Momento”, do autor Sonny Liew, de Singapura, e as brasileiras “Pandemia na Quebrada” e “Farol de Quebrada”, de Sirlene Barbosa e Joao Pinheiro, e a reportagem em quadrinhos “O País não pode parar”, de Vitor Teixeira e Guilherme Weimann. Todas belíssimas crônicas ilustradas retratando as esperanças e desesperos da luta que vivemos. Se as histórias em quadrinhos foram um dia negligenciadas como objeto de estudo, penso que no futuro, caso haja algum, os historiadores não poderão compreender nosso tempo sem se voltar também para essa linguagem artística.




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