25/06/2020 às 10h08min - Atualizada em 25/06/2020 às 10h08min

A poeira da literatura

IVONE ASSIS
A literatura movimenta a sociedade, os saberes, as paixões, o mercado, a arte... Um país que busca o desenvolvimento, com certeza, preocupa-se em produzir uma literatura de qualidade, haja vista ser a literatura a observação das ruas, dos governos e dos governados. A literatura é um convite às mentes ávidas do saber. Já dizia Monteiro Lobato: “Um país se faz com homens e livros”. Ora, ora, os livros são as lanternas que alumiam o pensamento.

A literatura faz parte das maiores conquistas da história. Para entendê-la, basta permitir que os olhos busquem as narrativas que permeiam as páginas do livro. Prática, esta, cada vez menos adotada, infelizmente. Aos poucos, o livro vai se tornando o brinquedo em desuso.

Nesta semana, enquanto eu arrancava “a poeira” de alguns livros, deparei-me com a escrita do roteirista paulistano Alfredo Nugent Setubal: “O livro de Líbero”, uma viagem à própria memória, uma investigação dos sentimentos, uma crítica do “e se...”. O livro é exatamente o que a literatura faz, revisita ou reescreve; é a história, porém dando o final que ela gostaria de dar, conforme vai ultrapassando a esfera poética da memória.

Faz-nos lembrar Octavio Paz (1990), quando este escreve: “La poesia es la Memoria hecha imagen y la imagen convertida em voz. La outra voz no es la voz de ultratumba: es la del hombre que está dormido en el fondo de cada hombre.” ("A Poesia é a imagem construída na memória e a imagem convertida em voz. A outra voz não é a voz do além, mas, sim, a do homem que dorme nas profundezas de cada homem”).

“O Livro de Líbero” apresenta a história de Líbero Perim (11 anos), filho de Massimo Perim. Na pequena cidade onde vivem, Líbero trabalha na Gazeta, e orgulhosamente se autointitula redator-repórter-editor-chefe-júnior daquele jornal. Até que chega o circo Bosendorf à cidade.

O narrador de parte da história oferece à Perim um livro com capa vermelha e seu nome impresso. Aquele livro é um portal para o conhecimento e servirá como pauta ao roteiro poético do menino, o qual, ao lado do amigo, parte para um lugar descrito por Massimo como “um milagre”. Desse modo, aquele que fora criado em meio às aventuras literárias, agora tem às mãos as próprias narrativas, podendo fazer delas aventuras ou desventuras.

Naquela interessante narrativa, em que ora a voz é personagem, ora é narrador, o pequeno Perin leva consigo a inocência e a perspicácia de um “jornalista”, “escrevendo” seu destino e também o daqueles que ele ama. A obra exibe a metamorfose da mente que se abre ao conhecimento. Embora distinta, em sua condição única de literatura, a narrativa lembra-nos a leitura das parábolas, cuja interpretação se aplica dentro de cada contexto. Nesse sentido, Manoel de Barros (1990, p. 328) afirma: “Escrevemos, portanto, comandados por forças atávicas, crípticas, arquetípicas ou genéticas”, considerando que sua poesia são fragmentos do imaginário.

Segundo Ecléa Bosi (1979, p. 356-357), “[...] o espaço da primeira infância pode não transpor os limites da casa materna, do quintal, de um pedaço de rua, de bairro. Seu espaço nos parece enorme, cheio de possibilidades de aventura. A janela que dá para um estreito canteiro abre-se para um jardim de sonho, o vão embaixo da escada é uma caverna para os dias de chuva”, e assim seguem as grandezas além “homem”. Perim está um pouco além desta criança.

O livro busca apresentar o sentido da vida, o propósito do homem, e nessa celebração da própria história, traz o resgate da infância, em suas percepções e vivências, o qual vai construindo “O livro de Líbero”, ou seja, é a literatura fazendo literatura.

Perim convoca os homens à imersão dentro de si, a fim de se descobrir capaz, e melhor, e mais amplo. Nesse processo de ampliação dos saberes, os novos enlaces da palavra vão sacudindo a poeira da literatura.



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