18/06/2020 às 09h15min - Atualizada em 18/06/2020 às 09h15min

Comportamento

IVONE ASSIS
A história da humanidade carrega registros de muitas doenças endêmicas que sugam pessoas, ao longo da existência humana. Dentre elas: febre amarela, peste negra, gripe suína, HIV, tuberculose, gripe espanhola e tantos outros surtos, epidemias, pandemias. No mesmo tropel, chegou a Covid-19 e sacudiu o mundo, revirou a ciência, abriu novos questionamentos, e continua a ceifar vidas, em qualquer faixa etária, classe social, raça, cor, gênero. Por mais que o homem apresente possibilidades que remetam à cura, ainda estamos longe de entender os porquês.

O indivíduo, a sociedade e a doença se tornou um desafio para a interpretação científica. Não bastasse a doença avassaladora, há também a intolerância e a insanidade. É a doença que não sara, a sociedade que não muda e o indivíduo que se envolve em uma esfera de ambição, cegando-se diante da vida. Todos os dias, milhares de famílias perdem pessoas queridas, seja com doença, seja com desafeto de alguém. E mesmo sabendo que o tempo é curto, muitos não se voltam para seu irmão, que pede, na maioria das vezes, somente um naco de compreensão. Mas é justamente o papel da complacência que está em falta.

Por mais que se abram debates, a trama social do indivíduo, em especial, em momentos dramáticos, fica quase incomunicável. O sujeito vai se enfurnando no profundo abismo da ganância, e esta boca é insaciável, devorando amor, respeito, vidas.

Embora o processo civilizatório seja esmagador, ainda há milhões de pessoas que buscam romper com essa posição limitadora, e para tanto esforçam-se para encontrar a transformação humana.

Na cadeia hierárquica, o  indivíduo vislumbra as lacunas que o permita moldar suas ações conforme seus propósitos, mas aí reside uma perigosa estrutura, é preciso estar atento aos propósitos, uma vez que estes levarão o homem à ação.

A cultura de um povo não pode sobrepor à necessidade higiênica (alimentar, sanitária, corporal...). O século XX foi marcado pelo combate às doenças por meio da higienização, e há que se lembrar disso, para que a espécie sobreviva com saúde. O homem está intrinsecamente ligado aos seus hábitos.

Como muito bem anotou "Ralph Waldo Emerson": "O homem é a sua própria estrela; e a alma, que pode torná-lo honesto e perfeito, comanda toda a luz, toda a influência, todo o destino; nada lhe acontece cedo ou tarde demais. Os nossos atos são os nossos anjos, bons ou maus, sombras do destino, caminhando ao nosso lado".

O período de 1347 a 1350 ficou marcado pela atuação dos ratos e pulgas, que desolaram o mundo com a pandemia da Peste Negra, que foi levada de um canto a outro pelos navios mercantes. Veio o ano de 1665, conforme escreveu Daniel Defoe (2002, p. 96), em "Um diário do ano da peste": "O cadáver sempre ficava abandonado até os funcionários serem avisados e virem buscá-los ou até a noite, quando os carregadores dos carros dos mortos o recolheriam e o levariam embora. Aquelas criaturas sem medo, que desempenhavam esta função, não deixavam de revistar seus bolsos e algumas vezes retirar suas roupas [...]". Em 1918 foi a vez da Gripe Espanhola implantar o terror. Chegamos em 2020, um outro milênio, e a Covid-19 veio mostrar que quase nada mudou. A "dança macabra" fez um baile pestilento, dissipando pessoas, igualando a humanidade em sua absoluta fragilidade.

A Ásia teve grande participação no tráfego das doenças, os governos tiveram responsabilidade na entrada das doenças em seus países, mas a higiene e os hábitos de cada um tiveram responsabilidade na transmissão das pestes. Em linhas gerais, parasita e hospedeiro vivem em um mesmo planeta, e o desequilíbrio ambiental é o primeiro passo para os ataques. Pulgas, ratos, gorilas, aves, morcegos não acabarão.

Como escreveu Emily Dickinson (1830-1886): "Não viverei em vão, se puder / Salvar de partir-se um coração, / Se eu puder aliviar uma vida / Sofrida, ou abrandar uma dor, / Ou ajudar exangue passarinho / A subir de novo ao ninho - / Não viverei em vão".



Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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