04/06/2020 às 08h49min - Atualizada em 04/06/2020 às 08h49min

Palavra mágica

IVONE ASSIS
Nesta semana, enquanto consultava sobre os Ministérios que, hoje, há no Brasil, deparei-me com um grilo intrigante, que ficou cantando em meus ouvidos. É o grilo do Turismo e da Cultura. Temos Ministério do Turismo e não temos Ministério da Cultura. Contudo, há chuvas de projetos dizendo: "Turismo é Cultura". Como é possível o vassalo superar seu senhor? Se cultura fosse menor, teríamos que dizer, cultura também é turismo, e não contrário. No entanto, se Cultura é maior, não seria prudente haver um Ministério de Cultura que contemplasse uma secretaria para o Turismo? Ah, por favor, não me julguem mal, nem mesmo pensem que estou a falar sobre política. Não. Meus parcos argumentos são em prol da Literatura, porque esta é Cultura.

A Cultura é participante no desenvolvimento das cidades em, praticamente, todos os setores: nas artes, na gastronomia, no setor rural, no esporte, no lazer, no turismo, nos eventos em geral. A Cultura é motivadora, é inspiradora, é atrativa. A Cultura promove o resgate da história, as tradições do povo, fortalecendo a identidade local. A Cultura gera trabalho, renda e conhecimento. Ela atua, positivamente, no comportamento humano, na segurança, na educação, no meio-ambiente e tantos outros. Todas estas coisas geram histórias, e os escritores e jornalistas levam estas histórias para os livros, jornais, redes sociais, congressos... Como escreveu Louis Aragon: “La littérature est une affaire sérieuse pour un pays, elle est, au bout du compte, son visage” (A literatura é um negócio sério para um país, ela é, afinal, sua cara).

Enfim, o sumo de toda essa promoção cultural gera conteúdo para a formação das gerações, que se renovam todos os dias. Pois, a cada 30 anos, ou menos, toda uma geração sai do mercado e este contrata uma nova geração. Tudo isso gera o PIB de um país. E a palavrinha mágica disso é Cultura.

É graças à Cultura que as pessoas se empolgam em aprender novas línguas e experimentar novos sabores. A Cultura move o mercado e a tecnologia, estimula viagens, experiências, moda, fotografia, cinema, dança, música, teatro, aprendizagem... A Cultura abre a mente para o saber e o bem viver. O mundo se alarga por meio da Cultura, por esta razão é tão difícil aceitar ou adaptar-se (ainda que temporariamente) a um retrocesso. A cultura é progressiva.

Almeida Garrett, em seu livro "Viagens na minha terra" (Cap. XXVI), escreveu: "Se  eu  for  algum  dia  a  Roma,  hei de entrar na cidade eterna com o meu Tito Lívio e o meu Tácito nas algibeiras do  meu  paletó  de  viagem. Ali,  sentado  naquelas  rumas imortais, sei  que  hei  de entender melhor a sua história, que  o  texto  dos  grandes  escritores se me há de ilustrar com os monumentos de  arte que os viram escrever, e que uns recordam, outros presenciaram os feitos memoráveis, o progresso e a decadência daquela civilização pasmosa".

O pilar da Cultura sustenta as tradições e as manifestações, dentre elas: atividades religiosas, artísticas, folclóricas, festas, comemorações cívicas, mercados, feiras (de livros, antiguidades, vinhos, negócios...). A Cultura não pode ser entendida como produto de menor valor.

Aproveitando o papel da Literatura na Cultura, cito “A Palavra Mágica”, de Carlos Drummond de Andrade, o qual narra sobre a busca e a persistência: “Certa palavra dorme na sombra / de um livro raro. / Como desencantá-la? / É a senha da vida / a senha do mundo. / Vou procurá-la. / Vou procurá-la a vida inteira / no mundo todo. / Se tarda o encontro, se não a encontro, / não desanimo, / procuro sempre. // Procuro sempre, e minha procura / ficará sendo / minha palavra”.

Em conformidade ao poeta, creio que a Literatura e a Cultura são senhas da vida. Elas têm o alcance das reticências. A Cultura promove o movimento-viver, a Literatura imortaliza-o nas palavras esculpidas nos livros, nas tábuas, nos pergaminhos, nos chips. Chamamos isso de história, ou poética da vida. Cultura e Literatura são palavras mágicas.



Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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