28/05/2020 às 09h31min - Atualizada em 28/05/2020 às 09h31min

A roupa mágica

IVONE ASSIS
Ao reler o clássico conto “A roupa nova do Rei” (1837), do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, fiquei pensando na importância de se enxergar com o coração e no quanto a atitude sincera é valorosa e nos livra da nódoa da vergonha.

“Há muitos anos, vivia um imperador que gostava tanto de vestimentas novas e bonitas, que gastou todo o seu dinheiro a vestir-se bem. Não se preocupava com os seus soldados nem com comédias ou em passear de carruagem pelo bosque, apenas queria exibir as suas vestimentas novas. Tinha uma casaca para cada hora do dia, e tal como se costuma dizer que um rei está em conselho, neste caso dizia-se: – O imperador está no guarda-roupa (ANDERSEN, p. 121)”.

O conto consiste da frivolidade e tolice de um rei, que só pensava em si, ou melhor, só pensava em suas roupas, até que dois falastrões, agindo de má fé, não apenas extorquiram o rei, mas também o fizeram passar por uma vexatória situação de nudez diante de seu reinado. Os ladrões fingiram confeccionar uma veste riquíssima e mágica. O conselheiro fingiu ver o excelente resultado daquele tecido. O rei fingia vestir uma roupa encantadora e encantada. O povo fingiu ver o que o rei via. E todos sabiam da loucura que se passava, mas todos fingiam ser maravilhoso, para que, desse modo, os interesses não fossem afetados. Na rede de fingimentos, todos se corromperam. A falta de legitimidade escandalizou e confundiu o povo, porque este também era passível de falsidade. Mas havia um menino, e criança tem o coração puro, criança carrega em si a inocência, então, sem se preocupar com qualquer opinião, regra ou interesse, o menino gritou: “O rei está nu. Não há roupa alguma”. E a grande massa caiu na gargalhada, porque o povo sabia, mas esperava que alguém assumisse a responsabilidade de romper com o silêncio.

O rei não teria passado por esse desgosto se tivesse agido com sabedoria, e se tivesse dado voz aos coerentes mentores. Conselheiros sem voz e sem determinação são a pedra no caminho de qualquer um. A fraqueza do rei afetou todo o reinado. Faltou confiança, transparência e autoconfiança, naquele império. Quando faltam esses elementos, qualquer projeto pode ruir. Na feira das vaidades, pela qual o mundo atravessa, muitos ficam cegos para a vida, enxergando somente aquilo que possa lhe favorecer de algum modo. A ambição é uma das maiores cegueiras da humanidade.

Andersen, em seu conto sobre as vestimentas do rei, apresenta uma literatura atemporal, que merece ser revisitada todos os dias. A soberba mata a intelectualidade do homem, e cega a sociedade com modismos. O comportamento é sempre passível de questionamento, não há padrões imutáveis. São as questões que promovem as respostas, e não o contrário.

Precisamos nos esvaziar de nossos Eus, para que enxerguemos o Outro, e só assim, a exemplo do menino no meio da multidão, poderemos agir com determinação e coerência. No prólogo do livro “El Conde Lucanor” (1335), o Príncipe de Villena, Juan Manuel, sobre a criação Divina, escreveu, quanto ao homem e sua singularidade: de todas as coisas maravilhosas que Deus fez, “há uma que chama mais a atenção, é o fato de que, existindo tantas pessoas no mundo, nenhuma seja idêntica à outra, nos traços de seu rosto, embora todos tenhamos nele os mesmos elementos. Se os rostos, que são tão pequenos, apresentam tanta variedade, não será estranho que haja grandes diferenças nas vontades e tendências dos homens. Então verá que nenhum homem se parece com o outro, seja nas escolhas, seja nas inclinações”.

A Arte é a porta de entrada e saída de muitas ideias e emoções. Saber analisá-la é fundamental. Somos um corpo, regido por um cérebro, que executa suas funções, mas, sempre conferindo se o coração está trabalhando bem. É assim que se descobre a necessidade do outro, é assim que o silêncio ganha voz. Libertar o silêncio que grita na consciência é desvendar a beleza ou a feiura da roupa mágica.



Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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