07/05/2020 às 10h09min - Atualizada em 07/05/2020 às 10h09min

Tempo, senhor de todas coisas

IVONE ASSIS
Aprendi, desde cedo, que “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derribar, e tempo de edificar; tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de saltar; tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora; tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar; tempo de amar, e tempo de aborrecer; tempo de guerra, e tempo de paz”. (Eclesiastes 3. 1-8).

Alguns desses tempos foram intensificados nos últimos meses e, embora o mundo passe por todos eles, desde sempre, não tem sido fácil suportar a intensificação do tempo de morrer, de chorar, de prantear, de afastar-se de abraçar, de perder, de deitar fora, de rasgar, de guerra... Está duro demais viver todos eles, ao mesmo tempo, e tão profundamente. Como dói! Como corrói a alma! Neste turbilhão de agonias, muitos serão protagonistas, muitos serão coadjuvantes, muitos serão meros espectadores, mas todos levarão a fotografia do medo, até que chegue o momento de seu adeus, seja já, seja daqui a muitíssimos anos. Enquanto a fotografia congela a cena em seu tempo, a mente congela a emoção no tempo de vivência. Desse modo, por mais que venham os novos tempos, o assombro dos velhos tempos estará sempre à espreita, para que o homem não se esqueça de sua fragilidade diante da vida.

A escritora Rosi Ferreira, em sua obra infantil “Belinha”, faz uma releitura da perda, da ruptura dos laços afetivos, de um modo muito lúdico e poético. A autora convidou, para dentro de sua interpretação, Cecília Meireles, um ícone da literatura nacional. E convidou também Marlene Spini, para colaborar com uma narrativa visual.

No poema “Bailarina”, Cecília poetiza: “Esta menina / tão pequenina / quer ser bailarina. / Não conhece nem dó nem ré / mas sabe ficar na ponta do pé”. Em “Belinha” Rosi escreve: “Belinha não podia pagar aulas de ballet, mas vivia na ponta do pé”.

Enquanto o escritor se desdobra para uma escrita capaz de alcançar um propósito, dentro daquilo que chamarei de estética da recepção do leitor, o pesquisador procura extrair desta escrita o que há de evidente e que, no seu entender, seja compreensível, a fim de ampliar a ludicidade e a fábula. Sobre isso, amparo-me em Maria da Glória Bordini, autora de “Poesia infantil” (p. 35, 1991), que afirma ser uma “[...] incompletude necessária do universo imaginário projetado pelo tecido verbal”. Pois, para ela, “O poeta é conduzido pelos limites gráficos e pelo próprio reducionismo da linguagem, a recortar os elementos do mundo a ser criado e a dispô-los no arranjo mais econômico para o efeito intencionado”. Daí, o vazio que vezes tantas silencia a voz ficcional, mas, que também concede ao leitor a oportunidade de aplicar sua percepção naquilo que lê, conforme seu espaço/tempo.

A literatura é um processo inacabado, permitindo uma interpretação atemporal, em que o imaginário da criança, do adulto, do pesquisador... enfim, do outro, encontra um porto para suas percepções, evidenciando que interpretar é ainda mais poesia, mais ficção, mais literatura. Então, no acervo de memórias de cada um, as histórias vão se encontrando e os enfrentamentos vão se reformulando, segundo a necessidade da fonte que busca. Conforme lemos em Rosi Cardoso (2013, p. 7-17): “Nem precisava viajar / tinha o mundo inteiro para inventar”. Mas, no mundo das árvores de Belinha, um dia a poda chegou, e com ela, o corte. “O pai foi plantar árvores em outros campos”. Deixando em Belinha “O medo, a tristeza e a solidão”. Outra vez, Rosi Cardoso invoca Cecília Meireles: “[...] aprendi com as primaveras / a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”. E aqui temos o tempo, senhor de todas coisas.



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