14/05/2020 às 07h45min - Atualizada em 14/05/2020 às 07h45min

Leitura traz o conhecimento

IVONE ASSIS
Dia após dia deparo-me com a pergunta: “As pessoas compram livros?” ou a afirmativa: “Ninguém compra livros”. Isso não é verdade, mas também não é mentira. Muitos são “alérgicos” à leitura, e do restante que lê, grande parcela é “alérgica” à compra do livro, ficando à espera de que alguém lhe empreste ou lhe doe um exemplar. Isso não se deve ao preço do livro, ou ao salário do leitor, mas, sim, à cultura. A nação não é educada para consumir livros, nem mesmo para valorizar o capital intelectual do escritor. Há pessoas que esboçam sua primeira criação e dizem: “Escrevi a melhor história de todos os tempos. Ninguém jamais escreveu isso!”, e ao ser indagado sobre sua leitura em tal temática, quase sempre a resposta é “Nenhuma”. Há situações piores, em que o sujeito alega “não ler para não sofrer influências”. Em um mundo das comunicações quem não é influenciado? Então, o parâmetro de comparação do indivíduo limita-se ao seu ego.

No estranho mundo das comunicações sem leituras, transbordam infratores em todos os segmentos. Todos culpam os transgressores que estampam as páginas policiais, mas fecham os olhos para os delitos “chancelados”. O desapreço ao conhecimento e o apego ao delito estão intrinsecamente ligados à educação recebida. Vejamos, o Art. 184 do Código Penal – Lei 2848/40, há 80 anos estabelece-se que, dentre outros, se forem “violados os direitos de autor e os que lhe são conexos”, inclusive por “reprodução total ou parcial”, “por qualquer meio ou processo”, haverá pena de detenção ou reclusão, e multa, conforme a infração.

Ainda, a Casa Civil, amparada pela Lei 9.610, de 19/02/1998, faz saber que, dentre outros, são protegidos, além das obras, os autores de obras intelectuais (literária, artística ou científica), exceto para obras em Domínio Público. Mas vieram o xerox, a cópia fotográfica, a internet, e a usurpação se tornou trivial. Por todos os anos que passei em escolas e universidades, nunca houve uma aula sequer sobre o valor do capital intelectual, ou sobre o dever cível como leitor, no entanto, todos os dias são disponibilizados fragmentos de obras no xerox. Lembro-me de uma colega, ao final de uma especialização, que ficou surpresa ao ver minha carteirinha da biblioteca. Perguntou-me o que era aquilo? Mais surpresa fiquei eu, que respondi com a pergunta: “Você comprou todos os livros que estudamos aqui?”. Ela riu-se e respondeu: “Você não sabe para que serve o xerox?”. É difícil aprender sobre o valor do livro se os campos de formação ensinam somente a prática da cópia.

Luís Martino, em sua obra “Teoria das Mídias Digitais” (2014, p. 40-42), ilustra seu assombro diante das redes sociais, por meio de uma animação da Pixar, citando o fato de que em um “futuro distante”, as pessoas perderam a “capacidade de se comunicar” sem as mídias. “Em uma cena, duas pessoas” sentam-se lado a lado e se comunicam pela rede social, ignorando o espaço entre elas. Mas, esse futuro já é presente. A “cibercaverna de Platão”, quando Platão, em “A república”, “propõe uma imagem para explicar a relação dos seres humanos com o conhecimento”, já é realidade faz tempo.

Lembremos Charles Dickens, cujos fãs-leitores aglomeravam-se nos portos para receber os livros. Depois, reuniam-se em cafés ou jantares, para leitura e discussão. Há marketing maior que este? Hoje investem-se milhões em mídias e o número de leitores é cada vez menor. Não se engane, alegando preferência pelo digital. Há centenas de veículos de leitura (ePub, PDF, Kindle.), são milhares de divulgações, o que falta é o leitor ávido de conhecimento. Os leitores de recortes e postagens até discutem como se dominassem o assunto, mas a superficialidade esmaga a tripulação leitora. Publicações longas ou curtas são todas vítimas da falta de leitura. Quem não sabe interpretar um poema não pode compreender um livro. A rapidez da imagem apresenta a impressão aos olhos, enquanto a solidez da leitura traz o conhecimento.



O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.



 
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