22/04/2020 às 09h04min - Atualizada em 22/04/2020 às 09h04min

As regras da exceção

LUCIANO FERREIRO
Em 2001, comecei a publicar minhas tiras de quadrinhos em um jornal da cidade, e com isso pude usar como referências várias publicações e experiências gráficas que expandiram o entendimento da narrativa visual, tendo aí os super-heróis, quadrinhos estrangeiros e várias publicações nacionais que circulavam sem muito alarde na mídia.
No dia da minha estreia, fui entrevistado e fiz ponderações sobre meu processo criativo e sobre influências, e embora não tenha mencionado as referências que cito aqui, pude falar sobre o método de recolher elementos cotidianos para compor as histórias.
Evidentemente esses conceitos não eram o foco central da minha entrevista, mas ajudariam a dar um contexto do tipo de produção quadrinística que estava por vir. Pois, junto com a minha produção, outros artistas também iam no mesmo caminho, onde diversos tipos de normatizações nos quadrinhos eram rompidas, seja no modo de se fazer ou na maneira de veicular, somando mais adiante no tempo o fato de que os jornais online lentamente iriam abrir mão de tiras e charges, especialmente porque essas últimas não tinham mais a sincronia editorial e cronológica em um mundo onde as notícias não podiam mais se acumular em 24 horas até serem publicadas.
Levando esses fatores em conta, decidi não publicar material convencional de quadrinhos naquele jornal. Criei apenas um personagem recorrente (Felisberto, um rapaz que eu concebi como um uberlandense comum), cujas tiras apareciam ocasionalmente, junto com tiras aleatórias sobre temas do momento e como personagens circunstanciais.
Geralmente publicava séries sobre temas que variavam de duração, retomando temas em outros momentos ou abandonando no caso de temáticas baseadas em noticiários. Mesmo alertado por colegas que o ideal seria trabalhar unicamente com um personagem, a fim de criar vínculo entre ele e o autor, arrisquei na aleatoriedade, pois tinha em mente que ao escolher um personagem e universo só, perderia a oportunidade de navegar em outros campos.
Nesse ponto, os caminhos cruzados pelo uso comercial e não convencional de quadrinhos na mídia, ajudou a formular técnicas de narração, enquadramentos e até mesmo de uso do espaço dentro das páginas do jornal, experimentando recursos e testando a resposta da audiência, ajudando a ampliar minhas capacidades técnicas e me preparando para diversos tipos de produção quadrinística.
E como diz meu colega Fernando Duarte, as ideias acabam, mas a obrigação de publicar não. Sendo assim, busquei produzir com bastante antecedência para evitar repetir ou faltar material inédito, mas o entusiasmo de poder experimentar e dialogar com o espaço editorial fez valer todo o esforço.


O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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