12/03/2020 às 16h14min - Atualizada em 12/03/2020 às 16h14min

Quanto custa e quanto vale?

IVONE ASSIS
Nos últimos dias o Brasil tem vivido momentos difíceis com as chuvas torrenciais. Em meio a tanto sofrimento, cada qual dá sua opinião. No vaivém de falas e falácias, o prefeito do Rio de Janeiro alegou que “as enchentes são oriundas da culpa da população, que gosta de morar em áreas de risco, para economizar na rede de esgoto”.

Fiquei pensando “Quanto custa e quanto vale” um cidadão para um político? É fato que não podemos generalizar, mas diante do festival de prisões e solturas políticas que o mundo vem acompanhando, até isso fica difícil.

Pois bem, conforme o IBGE (2010), cerca de 160 milhões de pessoas (85% da população) vivem em cidades, sobretudo em regiões metropolitanas, o que é ainda mais grave, quanto ao aglomerado de pessoas. É inegável que as cidades encantam, especialmente ao público jovem, pelas oportunidades ofertadas. Os estudos, o trabalho, os preparatórios, a saúde, o comércio, o lazer e tantos outros quesitos básicos da vida humana encontram-se nas cidades. Junto a tudo isso, e ao transporte, e à infraestrutura urbana e viária, encontra-se a questão da mobilidade urbana. Uma cidade não acessível é uma cidade imprópria, que vive exposta a acidentes de trânsito, comprometendo tanto a qualidade do trabalho como a qualidade de vida.

O êxodo rural superlotou as cidades, e estas não se prepararam para receber o migrante.

Carlos Henrique Ribeiro de Carvalho, autor de “Desafios da mobilidade urbana no Brasil” (Ipea, 2016) escreve: “Parte dos problemas urbanos vividos pela população brasileira hoje em dia é resultado desse forte e rápido crescimento das cidades, ocorrido após o início do processo de industrialização brasileira, sem que houvesse investimentos correspondentes na rede de infraestrutura urbana, formando grandes passivos nessa área. Os sistemas de transporte urbano são um exemplo claro desse descompasso entre o crescimento populacional e territorial urbano acelerado e a falta de investimento em infraestrutura de transporte de massa e não motorizado”.

Da publicação citada para cá, o cenário movimentou, porém não melhorou. Nos últimos anos, o brasileiro foi brutalmente penalizado pelos rompimentos de barragens, pelas enchentes, pelos acidentes de trânsito, pela poluição, pelas calçadas e pavimentações impróprias... Congestionamento é perda de vida, o tempo não para, não espera...

Clarice Lispector, em “Tempo é movimento”, anota: “Isto não é um lamento, é um grito de ave de rapina. Irisada e intranquila [...]. / Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que a morte faz [...]. Redondo sem início e sem fim, eu sou o ponto antes do zero e do ponto final. Do zero ao infinito vou caminhando sem parar. Mas ao mesmo tempo tudo é tão fugaz. Eu sempre fui e imediatamente não era mais. O dia corre lá fora à toa e há abismos de silêncio em mim. A sombra de minha alma é o corpo. O corpo é a sombra de minha alma. [...] Nunca a vida foi tão atual como hoje: por um triz é o futuro. [...] O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. [...] Há algo de dor e pungência em viver o hoje. Mas há o hábito e o hábito anestesia. Graças a Deus, tenho o que comer. O pão nosso de cada dia. Eu queria escrever um livro. Mas onde estão as palavras? Esgotaram-se os significados. Como surdos e mudos comunicamo-nos com as mãos. [...] A arte de abandonar não é ensinada a ninguém. [...] Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso [...]”
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Nesse afobamento do tempo tem-se esvaído o bom-senso. Ninguém mora em área de risco porque gosta. Enquanto as cidades vão se debatendo em meio à obstrução, fico a questionar, nas encostas do mundo: Quanto custa e quanto vale?


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.






 
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